O Espetáculo da Política e as Redes Sociais
Com a aproximação das eleições de 2026, figuras como Lula, Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro despontam como protagonistas de um cenário político que promete ser ainda mais centrado nas redes sociais. A cientista política e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Isabela Rocha, destaca que “a política se torna o campo do espetáculo”. Segundo ela, os discursos em plenário estão se adaptando à viralização nas plataformas digitais, e essa tendência tende a se intensificar.
Capturar a atenção em meio a um mar de informações se tornou essencial, levando os políticos a desenvolverem ações cada vez mais impactantes e simbólicas. Um exemplo recente é a caminhada interestadual do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que percorreu mais de 240 km a pé de Paracatu (MG) até Brasília (DF), em protesto à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que foi acompanhada ao vivo em suas redes sociais. “Eventualmente, você não sabe nada sobre Nikolas Ferreira até ele ir para as ruas, mas após 15 dias de ação, toda a atenção se volta para ele”, analisa o cientista político Glauco Peres, da USP.
A Performance no Centro do Debate Político
A caminhada de Nikolas Ferreira não passou despercebida nas redes sociais e resultou em uma mobilização significativa, com cerca de 18 mil pessoas se reunindo na Esplanada dos Ministérios no último dia da ação. Essa nova forma de fazer política, segundo Peres, envolve o cultivo de uma performance constante, tanto por políticos da direita quanto da esquerda. A prática é vista como um exercício de engajamento emocional, onde ações impactantes se sobrepõem a propostas concretas.
Outro exemplo é a greve de fome realizada pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) no ano passado, que durou oito dias. A decisão de parar de comer foi uma forma de protesto contra um processo que poderia culminar em sua cassação. “Essas ações têm um apelo emocional muito forte”, enfatiza Rocha, ressaltando que a performance política se tornou a nova forma de conquistar o eleitorado.
O Desafio das Propostas na Era da Viralização
Historicamente, estratégias para atrair a atenção do público sempre foram parte integrante da política. No entanto, a viralização da informação pode criar um descompasso entre o discurso performático e as propostas legislativas. Cada vez mais, políticos produzem conteúdo que, muitas vezes, pouco ou nada tem a ver com suas pautas, como vídeos sobre sua rotina pessoal ou atividades físicas. O objetivo é manter uma presença constante nas redes sociais e garantir o engajamento do público.
Glauco Peres explica que “essas estratégias visam cativar a própria base”, mantendo o eleitor mobilizado e presente nas redes. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), é um exemplo dessa abordagem. Ele frequentemente comparte vídeos de suas atividades esportivas, que, mesmo sem conteúdo político direto, contribuem para seu engajamento com a população.
A Influência das Redes na Formação de Opinião
As redes sociais seguem uma lógica de confirmação, onde os usuários preferem consumir conteúdos que reforçam suas crenças. Isabela Rocha explica que o conteúdo emocional é o que mais ressoa entre os eleitores, limitando o debate eleitoral e a diversidade de opiniões. Os políticos, por sua vez, tendem a evitar a produção de conteúdos que abranjam uma visão completa do cenário político, focando, antes, em mensagens que atraiam seu público-alvo.
Glauco Peres complementa que, muitas vezes, o debate político se torna unilateral, onde as vozes contrárias e as críticas não têm espaço para se manifestar, contribuindo ainda mais para a polarização.
Diferentes Aproximações: Direita vs. Esquerda
Ainda que as redes sociais ofereçam um campo fértil para todos os lados políticos, especialistas observam que as estratégias utilizadas por direita e esquerda costumam diferir. A direita frequentemente utiliza performáticas que remetem a narrativas de enfrentamento e denúncia, enquanto a esquerda tende a focar em ações coletivas e causas sociais. Um exemplo recente foi a postagem do governo sobre a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que usou elementos humorísticos para engajar o público.
No entanto, Isabela Rocha aponta que a esquerda enfrenta dificuldades em gerar o mesmo nível de engajamento que a direita, algo que se intensificou desde 2018. “Enquanto a direita já se adaptou às dinâmicas das redes sociais, a esquerda ainda busca formas de se destacar nesse universo”, concluiu.
O que se observa é uma convergência entre os dois lados: políticos utilizam constantemente as redes para promover uma “campanha” contínua, dando a impressão de que seus mandatos se estendem para além de Brasília, alimentando conteúdos nas plataformas digitais de maneira incessante.
