Desabamento e Interdição de Igrejas no Centro Histórico
Logo ao amanhecer, o historiador Gaspar Gois, membro do Liceu Histórico e Geográfico da Bahia (LHGB), iniciou seu dia com a rotina habitual no bairro da Graça, em Salvador. Enquanto se exercitava na academia de seu prédio, acompanhava as notícias pela TV. Foi então que uma reportagem impactante trouxe à tona a interdição de 12 igrejas do centro histórico da capital baiana, todas ameaçadas de desabar. A Defesa Civil de Salvador (Codesal), em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), anunciou a medida após vistorias que revelaram problemas estruturais graves, colocando em risco a integridade dos templos e dos fiéis.
Entre os locais interditados estão a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, a Igreja da Sagrada Família, a de Nossa Senhora da Conceição da Lapa, Santa Clara do Desterro, e outras emblemáticas construções como a Igreja dos Perdões e São Francisco, esta última palco recente de uma tragédia que resultou na morte de uma turista paulista devido ao desabamento do teto. As imagens mostravam partes dos templos já em colapso, reforçando a urgência da situação.
O Contexto dos Danos e a Falta de Apoio
O monsenhor Taborda, em entrevista ao vivo, detalhou os principais motivos para a deterioração dessas igrejas: infiltrações severas, rachaduras e deterioração das alvenarias, além da oxidação das ferragens e apodrecimento das estruturas de madeira como forros e telhados. Ele ressaltou que a manutenção adequada não cabe às paróquias, que não dispõem de recursos técnicos ou financeiros para tal, e que a responsabilidade deveria ser do Estado, uma vez que esses templos atraem grande número de turistas e representam um patrimônio cultural significativo.
Quando questionado sobre a atuação da Arquidiocese e seus apelos às autoridades federais, o monsenhor reconheceu que, apesar dos esforços do cardeal, as respostas governamentais são lentas diante da voracidade do avanço da degradação. A questão evidencia uma lacuna entre a preocupação local e a ausência de políticas culturais eficazes para proteger o patrimônio histórico religioso.
Leia também: Documentação digital revoluciona preservação de igrejas históricas no norte do Paraná
Fonte: curitibainforma.com.br
Leia também: Empresários e Cultura Se Unem para Revitalizar Igrejas Históricas do Rio
Fonte: alagoasinforma.com.br
Reação da Sociedade e Desafios das Instituições
Gaspar Gois, profundamente abalado, acionou um parente que faz parte da diretoria do LHGB para articular uma resposta mais contundente. A ideia era criar uma comissão que pudesse se dirigir ao Planalto em busca de soluções, contando inclusive com o envolvimento de artistas conhecidos que atuam em Brasília e já se mobilizam em defesa da cultura. No entanto, a descrença no impacto dessas ações era clara, refletindo o pessimismo diante da morosidade administrativa e da negligência histórica com o setor cultural.
Na primeira reunião da comissão, o escritor e geógrafo Benedito Conceição avaliou que qualquer protesto na capital federal seria inócuo, gerando apenas exposição midiática sem resultados práticos. Ele destacou que o governo federal sequer acompanhava adequadamente programas sociais já estabelecidos, o que indicava uma falta de sensibilidade também para a crise do patrimônio cultural, que não se restringe a Salvador, mas se repete em outras regiões do Brasil.
Outros membros da comissão, como a bibliotecária Damares Xavier, ressaltaram que a inação oficial pode ser interpretada como incompetência. A bibliotecária também denunciou as dificuldades enfrentadas pelo LHGB, que sofre com falta de espaço e recursos para modernização e conservação de seu acervo, evidenciando o descaso não só com os templos históricos, mas também com instituições culturais fundamentais para a memória da Bahia.
O jurista Osvaldo Bandeira lembrou que, embora a Justiça tenha determinado a liberação de verbas para a cultura, recursos seguem bloqueados por recursos judiciais, prolongando indefinidamente a situação de escassez financeira. Essa conjuntura afeta diretamente a capacidade de preservação dos patrimônios, ampliando o risco de perdas irreparáveis.
Uma Carta e a Esperança de Mobilização
Ao final da reunião, decidiu-se pela elaboração da “Carta da Bahia”, um manifesto que seria divulgado pela internet para chamar atenção ao drama das igrejas interditadas, evitando uma viagem improdutiva até Brasília. A carta busca despertar a sociedade para a urgência da preservação do patrimônio histórico religioso da capital baiana, enquanto reforça a necessidade de ações concretas por parte das autoridades locais e federais.
A situação das igrejas do centro histórico de Salvador expõe uma realidade crítica: a confluência do avanço da degradação física com a lentidão das respostas institucionais. O desafio está lançado para que o patrimônio cultural, que serve tanto aos fiéis quanto à memória coletiva, receba o cuidado necessário para continuar circulando e inspirando gerações.
