Revitalizando a cultura local
Antes da era dos anúncios luminosos e das estratégias modernas de marketing, a identidade visual do comércio em Feira de Santana era moldada por talentosos letristas e pintores. Entre o final da década de 1940 e os anos 1980, esses artistas, armados com tinta e pincel, transformaram fachadas, placas e veículos em verdadeiras obras de arte. À medida que a cidade crescia rapidamente, esses profissionais desempenhavam um papel crucial na comunicação visual e deixavam marcas estéticas que, hoje, vivem somente na memória coletiva.
No período pós-guerra até a década de 1980, Feira de Santana passou por um crescimento acelerado, impulsionado pela sua localização estratégica como um dos principais entroncamentos rodoviários do Norte e Nordeste do Brasil. O tráfego intenso de caminhões, aliado à presença de renomadas oficinas mecânicas na região, contribuiu para um ambiente urbano vibrante e em constante transformação.
Com a expansão do comércio no centro da cidade, surgiu uma demanda incessante por identificação visual. Sem acesso a tecnologias modernas, os comerciantes recorriam aos letristas para registrar nomes, marcas e anúncios nas paredes, em placas de madeira ou metal, ou mesmo em faixas de tecido para inaugurações e festividades.
A comunicação visual, embora artesanal, era direta e funcional. Mas, além disso, carregava uma identidade estética única, revelando a criatividade e o talento de cada profissional envolvido.
Pintores de fachadas e a arte dos caminhões
Os caminhões, por sua vez, tornaram-se verdadeiras telas em movimento. Para-choques e lameiras eram adornados com frases espirituosas, românticas ou provocativas, muitas vezes repletas de humor popular e referências culturais da época. Os motoristas buscavam esses artistas para personalizar seus veículos, exigindo precisão nos traços e impacto visual.
Entre os letristas mais requisitados estava China, conhecido pelo seu talento técnico e criatividade ímpar. Ao lado dele, nomes como Dodô e Maxixe também se destacaram, conforme relembra o cordelista Jurivaldo Alves, que atuou na profissão por um curto período.
Algumas expressões se tornaram icônicas, como: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração” e “Na terra em que os brutos também amam, mulher não tem coração”. Contudo, nem todas as mensagens eram benignas; algumas, consideradas ofensivas ou preconceituosas, geraram conflitos, incluindo um episódio trágico que resultou na morte de um motorista.
Riscos do ofício e legado cultural
O trabalho dos letristas não era isento de perigos. Jurivaldo Alves recorda momentos que o levaram a deixar a profissão, como quando teve que realizar um trabalho sobre uma caixa d’água sob forte calor, além de sofrer um choque elétrico durante a instalação de uma faixa em uma das avenidas centrais.
Apesar dos desafios, alguns profissionais conseguiram se tornar reconhecidos artisticamente. China, por exemplo, era uma referência, conhecido por seu domínio em estilos de letras e desenhos de alta qualidade. Casado com Romenilse Ferreira, ele deixou um legado familiar, mesmo que nenhum dos seus filhos tenha seguido a carreira artística, embora o talento tenha se manifestado em descendentes como Emerson e Micaele.
A pintura manual também teve seu espaço na publicidade cultural. O extinto Cine Teatro Íris, por exemplo, usava grandes placas de madeira para anunciar filmes, que funcionavam como pontos de informação integrados ao cotidiano da cidade, reforçando a importância da comunicação visual artesanal.
O fim de uma era e o apagamento cultural
Entre os letristas marcantes, Maxixe, oriundo de Salvador, se destacou pela rapidez e habilidade em criar desenhos sem esboços prévios, fazendo sucesso em boates da região. Já Dodô, cuja vida foi marcada por tragédias, faleceu tragicamente, o que simboliza o fim de uma era. O avanço tecnológico trouxe consigo a substituição da arte da pintura manual pelos anúncios luminosos, refletindo um apagamento cultural.
A transição da pintura artesanal para a publicidade moderna não é apenas uma mudança tecnológica, mas uma sinalização do desaparecimento de uma cultura visual rica e singular, que foi moldada pela destreza e individualidade dos letristas. Este apagamento se intensifica pela padronização estética imposta pelo marketing contemporâneo.
Embora os anúncios modernos sejam mais eficazes do ponto de vista comercial, eles eliminam a singularidade das fachadas e a conexão direta entre os artesãos e os espaços urbanos. O debate sobre a perda simbólica e cultural desse processo é escasso, principalmente em cidades como Feira de Santana, que tiveram sua história urbana profundamente impactada por esses artistas.
A falta de políticas de preservação para a memória visual da cidade é alarmante. Registros e depoimentos poderiam ser sistematizados para garantir que esse patrimônio cultural não se perca apenas em relatos orais e registros históricos.
