Desvendando o Autismo na Terceira Idade
Um estudo recente divulgado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) revelou que aproximadamente 300 mil idosos no Brasil convivem com algum grau do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa nova informação reacende o debate sobre o diagnóstico tardio e a invisibilidade dessa população ao longo da vida, além de destacar a urgência em adaptar o Sistema Único de Saúde (SUS) para atender essa faixa etária específica.
De acordo com o psiquiatra Dr. Raphael Silva, diretor da Clínica Vivace e professor de Medicina da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o autismo não surge na velhice, mas muitas vezes permanece sem diagnóstico por longos períodos. “O autismo não é um adoecimento da velhice; ele se inicia na infância, sendo um transtorno do neurodesenvolvimento. Entretanto, pode passar despercebido por décadas”, explicou.
O especialista aponta que um dos principais desafios nesse contexto é o subdiagnóstico, especialmente em adultos e idosos que, durante muitos anos, não tiveram acesso a profissionais capacitados ou a uma compreensão mais ampla sobre o espectro autista. Dr. Raphael enfatizou que, por muito tempo, o autismo foi encarado como uma condição exclusivamente infantil, o que resulta no fato de que adultos e idosos frequentemente não recebem o diagnóstico adequado.
O diagnóstico do autismo na terceira idade é particularmente desafiador, especialmente pela dificuldade em reconstruir a história comportamental desde a infância, um critério essencial para a confirmação do diagnóstico. “Não avaliamos apenas o comportamento atual. É fundamental entender como esse indivíduo se comportava na infância: se apresentava dificuldades de interação social, estereotipias motoras ou verbais, ou seletividade alimentar ou sensorial. Esses dados são frequentemente difíceis de serem coletados quando o paciente já está na terceira idade”, acrescentou.
Outro fator que complica o diagnóstico tardio é a camuflagem. Muitos indivíduos, ao longo da vida, desenvolvem mecanismos compensatórios, aprendendo a observar e imitar o comportamento alheio. “Um exemplo clássico é o contato visual. Com o tempo, alguns pacientes aprendem a parecer mais confortáveis em situações sociais, o que acaba mascarando os sinais do autismo”, comentou Dr. Raphael.
Além disso, os sintomas do autismo frequentemente se sobrepõem a outras condições comuns na velhice, como ansiedade, fobia social e depressão, criando ainda mais complicações no diagnóstico. “É muitas vezes difícil distinguir se o isolamento social é uma característica do autismo ou uma manifestação de fobia social. A presença de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, só agrava essa confusão”, explicou o psiquiatra.
O envelhecimento também provoca mudanças em aspectos cognitivos e comportamentais, o que pode levar a interpretações errôneas. “Um idoso pode tornar-se mais rígido ou metódico, características que podem ser associadas tanto ao autismo quanto ao processo natural de envelhecer”, ressaltou.
Para Dr. Raphael Silva, o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa se reestruturar para melhor acolher essa população, que historicamente foi invisibilizada. “O SUS deve estar atento a essa faixa etária. É imprescindível que ele se reorganize para oferecer assistência adequada ao autista em todas as fases da vida, especialmente aos idosos, que atualmente não dispõem de serviços de referência específicos”, afirmou.
O psiquiatra também sublinhou a importância da capacitação dos profissionais de saúde e da criação de linhas de cuidado que considerem as necessidades sensoriais e sociais dos idosos autistas. “Não há um medicamento para o autismo em qualquer idade. O que existe são suporte e terapias que melhoram a funcionalidade e a qualidade de vida. Capacitar profissionais para lidar com sobrecarga sensorial, dificuldades de interação social e outras demandas é essencial”, concluiu.
Por fim, ele enfatiza que o autismo é uma condição crônica e que o cuidado deve ser contínuo. “Essa discussão ressalta que o autismo é uma condição ao longo da vida. O sistema de saúde precisa reconhecer essa realidade e garantir um cuidado contínuo, desde o início até o final da vida”, finalizou.
