Educação como Transformação Social
Aos 77 anos, Manuel Lourenço de Oliveira é um exemplo inspirador de superação. Depois de dedicar sua vida ao trabalho e à criação dos filhos, ele finalmente aprendeu a ler e a escrever. Sua jornada é uma das muitas histórias de resistência que foram celebradas durante a Cerimônia de Alfabetização, realizada no último domingo (11) em Feira de Santana, pela iniciativa Mãos Solidárias na Bahia. O evento reconheceu quase mil jovens, adultos e idosos que se formaram através da Jornada de Alfabetização (Jornalfa), no Centro de Convenções da cidade.
Descendente de indígenas e pai de 12 filhos, Seu Manuel sempre trabalhou arduamente, “abrindo roça” e atuando na construção civil, a fim de garantir que seus filhos tivessem acesso à educação. Agora, chegou o momento dele trilhar esse caminho. “Hoje em dia, graças a Deus, eu assino meu nome, eu escrevo, eu leio”, expressou emocionado. Ele relembra os desafios que enfrentou antes de se alfabetizar: “Eu lutei para criar os meus filhos e agora meus filhos estão me criando, né? E nunca é tarde para aprender. A escolinha, graças a Deus, vai começar de novo. E eu falo com as pessoas: gente, não é ruim não. É bom demais! A pior coisa é chegar no ponto do ônibus e perguntar, ‘moço, pra onde é que vai esse ônibus?’”, contou ao Acorda Cidade.
Um Marco na Educação de Muitos
A cerimônia de formatura não foi apenas uma conclusão de um ciclo pedagógico; para muitos, foi uma restauração de dignidade e pertencimento, um direito que foi negado ao longo de suas vidas. Para Edivânia Vitória Moreira, coordenadora municipal do projeto, o sucesso da iniciativa reside na forma como ela se conecta com as comunidades locais. O projeto se destaca por levar a sala de aula para onde as pessoas estão, em colaboração com associações, igrejas e terreiros.
“Os educandos se sentiram mais acolhidos porque é uma educação que abraça, que acolhe e que entende o outro. Muitas vezes, eles abandonaram a escola para ajudar em casa, e surgiram aqui no projeto como aqueles que não puderam concluir os estudos na idade certa. Agora, estamos aqui celebrando a conquista deles”, celebrou Edivânia.
Uma Iniciativa Nacional de Inclusão
A formatura de Feira de Santana é parte de um movimento nacional que visa a alfabetização de jovens, adultos e idosos. Durante o evento, foi anunciado que mais de 600 alunos concluíram a aprendizagem por meio do método Sim ou Posso, uma abordagem voltada para a inclusão educacional que ocorre em todo o Brasil. No município, o projeto abrangeu 60 turmas e mais de mil estudantes, com o compromisso de erradicar o analfabetismo.
Os formandos representam a resiliência do povo feirense, incluindo ex-trabalhadores rurais, pessoas que já enfrentaram situações de trabalho análogo à escravidão, pessoas com deficiência e moradores de áreas periféricas que, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de priorizar sua educação. O processo de alfabetização foi desenvolvido ao longo de aproximadamente cinco meses, utilizando uma metodologia inspirada na educação popular.
“Trabalhamos temas relevantes, como a violência contra a mulher, alimentação saudável e o cuidado com o corpo no dia a dia, entre outros assuntos que impactam diretamente nossas vidas”, explicou a coordenadora. O projeto, que possui alcance nacional, também conta com a articulação da Universidade Federal de Pernambuco e o apoio financeiro da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento (FAD).
