Um Espaço de Diálogo e Formação
Entre os dias 22 e 24 de janeiro, a Aldeia Murutinga, localizada em Autazes, no Amazonas, se transformou em um verdadeiro centro de discussões e capacitação. A Oficina de Políticas, organizada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em parceria com lideranças das comunidades Mura de Autazes e Careiro da Várzea, teve como foco o fortalecimento da luta coletiva em defesa dos direitos indígenas.
Para o povo Mura, discutir questões políticas no próprio território é um importante ato de afirmação cultural e identitária. Durante os encontros, foram abordados temas fundamentais que refletem tanto o passado de resistência contra os invasores quanto os desafios atuais e as perspectivas futuras em busca de direitos dignos para as novas gerações.
“Realizar uma oficina sobre política dentro do território é um ato de afirmação da identidade e da cultura indígena”, enfatizou um dos participantes, ressaltando a relevância do conhecimento enraizado na vivência e resistência do povo Mura. O encontro foi mais do que uma mera troca de ideias; foi um momento de escuta ativa e construção coletiva, onde se analisaram os caminhos percorridos e os novos desafios políticos que se avizinham, especialmente em relação a 2026.
O Papel das Lideranças na Atualidade
Roni Braga Mura, coordenador da Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (OIRMA), destacou a importância de se compreender o papel da liderança em um contexto de rápidas mudanças tecnológicas e sociais. Ele comparou a fragilidade das lideranças que cederam à pressão da empresa Potássio do Brasil, que prometeu compensações financeiras individuais em troca de apoio à exploração mineral em território Mura.
“Historicamente, pensávamos que apenas os mais velhos eram líderes. Hoje, percebemos que ser liderança exige conhecimento amplo sobre questões sociais e ambientais. Se as lideranças de Autazes que apoiam a exploração tivessem essa compreensão, não estaríamos tão divididos”, ponderou Roni, que criticou os argumentos que favorecem a mineração sem embasamento adequado.
A coordenadora da Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV), Ana Cláudia Mura, também reforçou a complexidade da tarefa de liderar, que, apesar de árdua, traz recompensas tanto pessoais quanto comunitárias. “A vida de liderança é cheia de desafios, mas é gratificante lutar por um sonho coletivo”, afirmou.
Promessas Vazias e suas Consequências
A chegada da Potássio do Brasil prometeu um futuro de prosperidade e empregos, mas essa ilusão esconde uma realidade mais complexa e preocupante. As promessas de desenvolvimento econômico ignoram os perigos ambientais e sociais, como a desestabilização das comunidades locais. “As promessas são enganosas e têm um custo alto para nossos costumes e saberes tradicionais”, afirmou Leandro Braga Mura, destacando a perda gradual desses conhecimentos devido à exploração.
Ele alertou que a exploração mineral não apenas compromete a saúde dos ecossistemas vitais, mas também afeta a identidade cultural das comunidades. “As tradições estão se apagando e a vulnerabilidade já chegou às nossas aldeias”, disse Leandro, ressaltando o impacto negativo da mineração sobre os costumes e práticas ancestrais.
A Luta pela Demarcação de Territórios
A demarcação de terras indígenas é um direito estabelecido pela Constituição e essencial para a proteção cultural e territorial dos povos originários. No entanto, o povo Mura de Autazes e Careiro da Várzea ainda luta para ver esse direito respeitado. A morosidade do Estado só agrava as tensões sociais e a degradação ambiental, especialmente na Terra Indígena Lago do Soares.
“A mineração representa um genocídio para nós, impactando diretamente nossas tradições e modos de vida”, enfatizou Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM). As discussões na oficina evidenciaram como esses processos de exploração vêm dividindo as comunidades, alimentando conflitos e incertezas.
A Importância da Juventude Indígena
A juventude indígena, muitas vezes subestimada, desempenha um papel vital na construção do futuro de suas comunidades. Opiniões divergentes sobre a falta de interesse dos jovens foram rapidamente desmentidas durante a oficina, onde a participação ativa deles se destacou como essencial para a luta política. “Cada vez mais, os jovens estão se envolvendo em mobilizações e na defesa dos nossos direitos”, disseram os participantes.
Roni Mura expressou orgulho ao notar o engajamento das novas gerações. “Precisamos capacitá-los para que, no futuro, sejam os representantes da nossa luta”, destacou, enfatizando a importância de discutir as pautas e desafios junto aos mais jovens.
O Desafio das Eleições de 2026
Com as eleições de 2026 se aproximando, o debate sobre participação política ganhou destaque. A formação na oficina enfatizou a importância de compreender o sistema político para escolher representantes que garantam os direitos indígenas. “Saber votar é fundamental para eleger aqueles que realmente defendem nossas pautas”, ressaltou o professor Diego Mura.
A análise do contexto político atual, realizada por Luiz Ventura, secretário executivo do Cimi, alertou sobre as pressões econômicas que afetam os territórios indígenas. “Precisamos nos preparar para as eleições e estar unidos em nossa luta pela demarcação e proteção dos nossos territórios”, concluiu.
Diante de um panorama repleto de desafios, a formação e a mobilização do povo Mura são essenciais para garantir um futuro digno e sustentável, com a preservação da cultura e dos direitos indígenas.
