O Agronegócio e a Ocupação de Terras Palestinas
O Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) lançou uma campanha convocando a pressão sobre a Amaggi, uma das maiores produtoras de soja do Brasil, para suspender a aquisição de fertilizantes provenientes de regiões ambientalmente delicadas em terras ocupadas por Israel na Palestina. Este chamado ocorre em meio a um crescente debate sobre a responsabilidade das empresas brasileiras em relação à sustentabilidade e à ética em suas operações.
A Amaggi, que possui relações comerciais com a companhia israelense ICL, recebeu insumos e fertilizantes desta empresa, que é acusada de financiar atividades em regiões que violam o direito internacional. A ICL, segundo denúncias, extrai recursos minerais de terras palestinas ocupadas, levantando questões sobre a legitimidade de suas práticas comerciais.
Através de uma investigação realizada pela Repórter Brasil, foi possível rastrear um carregamento que partiu do Porto de Ashdod, em Israel, e chegou ao Porto de Itacoatiara, no Amazonas, em janeiro de 2023. Este transporte incluía 34 mil toneladas de cloreto de potássio e 11,3 mil toneladas de superfosfato simples, essenciais para a fabricação de fertilizantes. Além disso, o histórico de trocas entre ICL e Amaggi indica que esse não foi um caso isolado.
Em resposta a essa situação, a ICL afirmou que suas operações ocorrem “inteiramente dentro das fronteiras israelenses” e em conformidade com regulamentos aplicáveis. No entanto, as ocupações israelenses na Palestina são vistas como ilegais pela comunidade internacional, pois desrespeitam acordos estabelecidos pela ONU durante a criação de Israel em 1947.
O cenário é ainda mais complexo quando se observa a atuação da subsidiária ICL Rotem, que tem suas operações no deserto de Naqab, levando ao deslocamento de comunidades beduínas. Um projeto recente da ICL para a abertura de uma nova mina de fosfato em Arad pode afetar até 100 mil habitantes, incluindo 15 mil beduínos. Além disso, em 2017, a ICL Rotem enfrentou críticas severas após um vazamento que despejou resíduos tóxicos em um rio local, comprometendo o ecossistema da área.
Além das questões ambientais, a ICL é acusada de contribuir para a violência na região, sendo denunciada pelo fornecimento de fósforo branco para munições usadas por Israel contra civis palestinos. Essas alegações destacam a responsabilidade moral das empresas, especialmente da Amaggi, que, segundo investigações, não demonstrou preocupação suficiente em suas relações comerciais com a ICL que pudesse comprometer sua reputação.
O Movimento BDS enfatiza a importância de conscientizar sobre a origem dos insumos utilizados na agricultura e pede um boicote ao uso de fertilizantes que contribuem para a degradação ambiental e a opressão de minorias. A pressão popular, segundo os ativistas, é essencial para que empresas como a Amaggi repensem suas práticas e optem por fornecedores que respeitam tanto o meio ambiente quanto os direitos humanos.
Implicações Econômicas e Relações Brasil-Israel
A relação comercial entre Brasil e Israel é significativa, com dados de 2024 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostrando um intercâmbio que ultrapassa US$1,2 bilhão, embora tenha apresentado uma redução de 14,9% em relação ao ano anterior. Os insumos para a agricultura, como fertilizantes e inseticidas, compõem uma parte substancial das importações brasileiras.
O agronegócio se destaca como um dos principais setores beneficiários das exportações brasileiras, com um aumento de 9,6% em relação ao ano anterior, totalizando US$725,1 milhões. Produtos como soja, milho e carnes são os protagonistas nesse cenário, refletindo a forte dependência do Brasil em relação ao setor agrícola. Essa dinâmica é preocupante, especialmente quando se considera que a questão palestina se entrelaça com debates sobre justiça climática e a responsabilidade de grandes empresas.
A luta pela libertação da Palestina não deve ser vista apenas como um conflito geopolítico, mas também como uma questão de justiça climática. As políticas do agronegócio brasileiro, que se beneficiam de relações com um estado colonial, levantam questões éticas profundas. Enquanto isso, a realidade para muitos palestinos é marcada pela fome e pela privação de direitos, com dados da ONU apontando que mais de 600 mil pessoas enfrentam escassez de alimentos na Gaza.
Enquanto o governo brasileiro, sob a liderança de Lula e Alckmin, apresenta propostas de investimento em áreas sociais, como saúde e educação, o agronegócio continua a receber uma injeção significativa de recursos. Essa contradição, somada à flexibilização de legislações ambientais, evidencia a força do latifúndio e do capitalismo no país.
Portanto, a luta pela Palestina se configura como uma extensão das lutas por justiça social e ambiental em todo o mundo, unindo vozes contra o imperialismo e a exploração. A conscientização sobre as práticas empresariais e suas consequências é crucial para mudar a dinâmica atual e construir um futuro mais justo.
