Desafios e Oportunidades que o Setor Agrícola Enfrentará nos Próximos Anos
O agronegócio brasileiro, responsável por aproximadamente 30% do PIB do país, adentra 2026 em um cenário totalmente transformado. Após anos de altas recordes nos preços, a realidade atual exige que produtores rurais, investidores e empresas do setor adotem estratégias de gestão cautelosa e operações extremamente eficientes.
Segundo análises de instituições financeiras renomadas, como Itaú BBA e Rabobank, o panorama é paradoxal: mesmo com a produção física alcançando novos patamares, a rentabilidade será ameaçada por juros elevados e custos crescentes. O ambiente macroeconômico se tornará ainda mais desafiador, exigindo dos envolvidos no agronegócio uma gestão financeira rigorosa e proteção contra riscos. “O mercado ficou muito mais desafiador”, observa César de Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA.
A estrutura macroeconômica que sustentou a expansão agrícola nos últimos anos está mudando profundamente. A robustez na produção não se traduz, necessariamente, em rentabilidade imediata. De acordo com a economista-chefe da InvestSmart XP, Monica Araujo, não há expectativa de melhoria nos preços das commodities, dado o provável aumento na safra e um consumo mais equilibrado.
Aperto Econômico e Custo de Capital no Agronegócio
O custo de capital será uma das principais pressões sobre os investimentos no agronegócio em 2026, com o Banco Central mantendo a Selic em níveis elevados. As projeções indicam que a taxa básica de juros deve permanecer em torno de 15% até o primeiro trimestre do ano, podendo chegar a 12% até o final do ano. Para produtores que dependem de crédito para expandir suas operações, isso significa enfrentar um capital com custos proibitivos.
Essa pressão se reflete na alta de recuperações judiciais. De acordo com a RGF Consultores, 25 em cada mil produtores de soja e nove em cada mil pecuaristas estavam em recuperação judicial no terceiro trimestre de 2025. Assim, produtores de diferentes setores devem se adaptar a essa nova realidade.
Desafios com Insumos e Geopolítica
Com o ambiente macroeconômico estabelecido, o impacto mais imediato se concentra nos insumos. O mercado de fertilizantes enfrenta um paradoxo: enquanto a demanda por tecnologia para aumentar a produtividade não cessa e as importações atingem recordes, os preços permanecem em níveis elevados. Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX, destaca que o Brasil passou por uma redução na importação de fosfatados em 2025, devido aos altos preços e relações de troca desfavoráveis.
Esse cenário levou os produtores a buscar alternativas mais econômicas, como o superfosfato simples, que oferece melhor relação custo-benefício. O país, dependente de potássio e fosfatados, se vê à mercê de decisões políticas de nações como Rússia, China e países do Oriente Médio, o que só aumenta a incerteza no setor.
Aumentos nos Custos de Produção
O Rabobank projeta um aumento de 7,4% nos custos médios de adubação para 2026, sendo a cana-de-açúcar particularmente impactada, com alta estimada em 10,7%. O Itaú BBA observa que essa mudança nas estratégias de compra é uma resposta aos altos preços dos insumos e que a busca por eficiência já está sendo implementada.
Um aspecto positivo é que a eficiência logística brasileira garantiu um abastecimento recorde, mas essa vantagem não protege os produtores das pressões inflacionárias e da volatilidade nos custos de insumos. Em 2026, o desafio não será a escassez de produtos, mas sim a gestão das margens operacionais em um contexto de custos crescentes e estabilidade nos preços das commodities.
Expectativas para os Grãos e Pecuária
O complexo de grãos está preparado para enfrentar 2026 com uma previsão de produção recorde, mas a lucratividade poderá ser pressionada. A soja, por exemplo, deve atingir entre 177 milhões e 178 milhões de toneladas na safra 2025/26, consolidando a liderança brasileira no mercado global. No entanto, a área plantada deve crescer apenas 2%, refletindo a fragilidade financeira dos produtores.
Em contraste, a pecuária entra em uma nova fase, com os criadores enfrentando uma diminuição na oferta de gado. A pressão aumentada sobre os preços e a melhoria na produção de bezerros podem abrir oportunidades para os criadores que sobreviveram aos desafios anteriores.
Por fim, enquanto o setor de grãos apresenta desafios relacionados à rentabilidade, a pecuária e a avicultura encontram espaço para crescimento e inovação, exigindo que todos os envolvidos no agronegócio estejam atentos às dinâmicas de mercado e prontos para se adaptar às mudanças constantes que 2026 trará.
