Desafios e Alternativas Logísticas para o Agronegócio
O fechamento do Estreito de Ormuz, uma rota crucial pelos quais transitam mais de 95 mil contêineres de frango brasileiro anualmente, tem forçado os exportadores do agronegócio a reavaliar suas estratégias logísticas. Desde o recente conflito entre Israel e Irã, que resultou em ataques a alvos iranianos, companhias marítimas suspenderam temporariamente a oferta de novos contêineres para produtos brasileiros. Contudo, novas alternativas começaram a surgir na última terça-feira (3), com cerca de 5 mil toneladas de frango sendo enviadas diariamente à região, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
A ABPA revelou que algumas empresas já estão explorando novas rotas de navegação. Além disso, embarcações que já deixaram o Brasil podem precisar ser redirecionadas ou apenas permanecer em armazéns, uma vez que a carga está congelada. Até o momento, a entidade observa que não houve mudanças significativas nas exportações.
No mês de fevereiro, as exportações de carne de frango do Brasil, incluindo todos os produtos, como in natura e processados, totalizaram 493,2 mil toneladas, um aumento de 5,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, que registrou 468,4 mil toneladas. Nos dois primeiros meses deste ano, o total acumulado subiu para 952,3 mil toneladas, representando uma alta de 4,5% em comparação ao ano passado, que registrou 911,4 mil toneladas. Em termos de receita, o crescimento foi de 7,2%, totalizando US$ 1,819 bilhão em 2026, em contraste com US$ 1,696 bilhão nos primeiros meses de 2025. Esses números refletem o melhor desempenho já registrado em volume e receita para o setor no início do ano.
Principais Destinos e Importância do Estreito de Ormuz
Entre os principais destinos das exportações brasileiras de carne de frango, a China reafirma sua posição de liderança, seguida pelos Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita. Essa dinâmica ressalta a relevância do Estreito de Ormuz no comércio de frango do Brasil. Para enfrentar os desafios logísticos que surgem com o fechamento da rota, o Ministério da Agricultura se disponibilizou a ajudar nas adequações necessárias na documentação de destino.
Exploração de Novas Rotas
As alternativas logísticas que estão sendo exploradas incluem rotas já em uso, como a passagem pelo Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Iémen a Djibouti, oferecendo acesso ao Mar Vermelho e à costa leste da Arábia Saudita. Outra opção envolve a combinação de transporte marítimo e terrestre: a carga é descarregada no Porto de Salalah, em Omã, e transportada em caminhões refrigerados até Dubai. Um terceiro caminho considerado é o porto de Khorfakkan, localizado na costa leste dos Emirados, que possibilita a entrega de mercadorias antes da passagem pelo Estreito de Ormuz.
Essas novas rotas demonstram a flexibilidade necessária para que o Brasil mantenha sua presença no mercado do Oriente Médio, que é crucial para a exportação de frango. A Arábia Saudita, por exemplo, importa mais da metade do frango que consome do Brasil, enquanto os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia absorvem 74% e 90%, respectivamente, da produção exportada pelo país. No total, os doze países da região atendidos pelo Brasil (excluindo o Irã) consomem entre 100 mil e 120 mil toneladas mensalmente, o que representa cerca de 15% da produção nacional.
Um Cenário Geopolítico em Mudança
Nos anos 1980, o foco da geopolítica estava nas relações entre os EUA e o Golfo; hoje, a Ásia, especialmente a China, tornou-se um ator central, dada sua grande dependência do tráfego pelo Golfo e consumo de energia. Quatro décadas depois, a situação se repete, mas agora com tecnologias mais avançadas. O Estreito de Ormuz se tornou um “mercado em estresse”, com a retenção de dezenas de navios e ameaças atribuídas à Guarda Revolucionária do Irã, o que resultou numa queda acentuada do tráfego e aumento das tarifas de frete para trajetos, com superpetroleiros alcançando US$ 424 mil por dia em rotas até a China.
A nova realidade inclui a utilização de drones, veículos não tripulados e guerra eletrônica, que se somam a métodos tradicionais de conflito, como minas e mísseis. Embora os sistemas de rastreamento tenham aumentado a transparência das operações, eles também tornaram possíveis interrupções mais visíveis, impactando mercados em tempo real. Com apenas uma semana de conflito, as consequências já estão se manifestando, e a duração da crise pode tornar essa situação ainda mais desafiadora para o agronegócio brasileiro.
