Um Encontro de Saberes e Tradições
A tradição do Bembé do Mercado, uma das maiores celebrações de candomblé de rua do mundo, foi o centro de um trabalho acadêmico significativo realizado por Ana Rita Araújo Machado. A pesquisadora apresentou sua dissertação de Mestrado no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), explorando as origens e os significados dessa festa, que ocorre anualmente em Santo Amaro, Bahia. A apresentação da narrativa histórica no desfile da Beija-Flor, realizado na última segunda-feira (16), foi uma oportunidade de levar essa rica cultura para o coração do carnaval carioca.
Na quarta-feira (18), após a apuração das notas, a escola Beija-Flor garantiu o segundo lugar na competição, ficando atrás apenas da Unidos do Viradouro, que alcançou 270 pontos. As escolas de samba retornarão ao sambódromo no próximo sábado (21) para o Desfile das Campeãs, celebrando o êxito do carnaval.
Conexão Entre Pesquisa e Carnaval
Em entrevista ao g1, Ana Rita lembrou que a relação entre a Beija-Flor e seu trabalho começou com um estudo que ela realizou em colaboração com o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (Muncab), em Salvador. Esse encontro inicial despertou o interesse da escola, que decidiu aprofundar a pesquisa até a elaboração de sua dissertação de Mestrado.
Durante um ano de investigação, os membros da Beija-Flor visitaram a Bahia, onde dialogaram com a comunidade local, conheceram Santo Amaro e coletaram informações valiosas sobre a história da festa. Ana Rita destacou a importância desse intercâmbio cultural: “Houve uma troca intensa e constante. Eles já tinham lido minha dissertação e outros textos que publiquei. Era evidente a preocupação em representar Santo Amaro de maneira respeitosa e cuidadosa em relação ao Bembé”, afirmou a professora, que acompanhou tanto o desfile quanto a apuração dos votos.
A Importância Cultural do Bembé do Mercado
O Bembé do Mercado, que remonta a 1889, foi fundado um ano após a abolição da escravatura e é celebrado todo dia 13 de maio. A festa é um tributo às divindades das águas, onde praticantes do candomblé prestam homenagem a Iemanjá e Oxum, aproveitando a ocasião para agradecer pela proteção coletiva e individual.
Em 2019, o evento recebeu o título de Patrimônio Cultural do Brasil, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além disso, a festa é reconhecida como Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012, reforçando sua relevância cultural. Para Ana Rita, o Bembé do Mercado é um símbolo de resistência e organização das populações negras no período pós-abolição, tornando-se um patrimônio cultural essencial do Brasil. “Quando a Beija-Flor escolhe um tema como o Bembé, isso ajuda as pessoas a reconhecerem a importância dessa celebração que existe há muito tempo”, comentou.
Visibilidade e Representatividade no Desfile
Cerca de 40 representantes do Bembé viajaram ao Rio de Janeiro para desfilar no último carro alegórico da Beija-Flor, e Ana Rita enfatizou o impacto simbólico dessa participação. “Eles representam valores civilizatórios das populações negras e das religiões de matriz africana. Estar ali é uma forma de dar visibilidade a essas pessoas em um evento de alcance global”, comentou a professora.
Nascida em Santo Amaro, Ana Rita traçou sua carreira acadêmica em Feira de Santana e atualmente é professora do colegiado de História na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Santo Antônio de Jesus. Ela também coordena o “Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios de povos do terreiro e religiões africanas e afro-indígenas” em sua cidade natal. Sua escolha pelo tema de pesquisa está intrinsecamente ligada à sua vivência pessoal e acadêmica no recôncavo baiano, começando com um convite para mapear terreiros em Cachoeira, o que evoluiu para anos de dedicação ao estudo das populações negras e suas culturas.
O desfile na Sapucaí não apenas consolidou a importância do Bembé do Mercado, mas também destacou a relevância do trabalho acadêmico de Ana Rita na construção de uma narrativa respeitosa e autêntica sobre essa rica tradição cultural.
Considerada a maior manifestação do candomblé de rua do mundo, a festa foi reverenciada pelo desfile da Beija-Flor, que conquistou o vice-campeonato, celebrando a rica herança cultural brasileira.
