Uma Raiz Cultural Profunda
Feira de Santana, conhecida como a Princesa do Sertão, possui uma rica história ligada à literatura de cordel, uma expressão cultural que se consolidou como um dos principais meios de comunicação popular na cidade e em diversas regiões nordestinas. Antes da popularização do rádio, da televisão e do fácil acesso à leitura, os folhetos rimados eram a principal forma de difusão de informações, valores e memórias coletivas. Essa tradição, que se destaca na identidade feirense, continua viva por meio de autores, colecionadores e novos criadores, que trazem temas contemporâneos e reafirmam a importância cultural e educacional do cordel.
Com seu caráter metropolitano e cosmopolita, Feira de Santana se desenvolveu em um ambiente onde a cultura popular prevalece. Nesse cenário, o cordel se destacou como um veículo acessível à população, especialmente em épocas marcadas pela falta de meios eletrônicos e pelo analfabetismo. Os folhetos impressos, muitas vezes acompanhados de declamações em voz alta, se tornaram ferramentas essenciais de informação, entretenimento e formação cultural.
A Presença dos Cordelistas nas Feiras Livres
Nas feiras-livres, que são o coração da vida econômica e social da cidade, a presença de cordelistas e declamadores era uma constante. Autores criavam os textos, vendedores os comercializavam, enquanto leitores alfabetizados e com boa dicção recitavam os versos para o público, ampliando o alcance das narrativas populares.
Franklin Machado: Um Ícone do Cordel Feirense
Citar a história do cordel em Feira de Santana é, sem dúvida, mencionar Franklin Machado, ou “Maxado”, como é conhecido. Advogado e jornalista feirense, Franklin decidiu seguir a carreira no cordel, abandonando uma trajetória profissional convencional para se dedicar à produção e comercialização de versos populares. Ao longo de sua vida, ele viajou por diversas cidades do Brasil e do exterior, levando o cordel feirense a novos públicos, incluindo Portugal, país que compartilha raízes históricas com essa forma literária. Sua trajetória foi crucial na valorização e na difusão da literatura popular da cidade.
Jurivaldo Alves e a Preservação do Cordel
Outro nome marcante é Jurivaldo Alves da Silva, natural de Baixa Grande e residente em Feira de Santana desde a adolescência. Ele é o responsável pela Cordelteca do Mercado de Arte Popular (MAP), onde mantém um acervo estimado em cerca de 5 mil volumes, considerado um dos mais valiosos do Brasil. Muitas das obras que ele abriga são raras e não estão disponíveis para venda.
A relação de Jurivaldo com o cordel começou na juventude, quando dependia das declamações nas feiras para se familiarizar com a literatura. Ao longo de sua vida, ele se aventurou em várias profissões, mas encontrou sua verdadeira vocação como cordelista e guardião dessa tradição. Atualmente, além de produzir e vender cordéis, ele se dedica a palestras em eventos culturais e é uma referência no estudo da literatura popular nordestina.
Os Mestres do Cordel em Feira de Santana
No panorama do cordel feirense, Jurivaldo destaca figuras icônicas como Antônio Alves, que viveu na cidade por mais de 50 anos e faleceu em 2013. Reconhecido como um mestre dos versos, Alves transformava fatos cotidianos em narrativas rimadas que foram amplamente divulgadas. Entre suas obras estão “Os Perigos de Fernando e Joventina”, que narra um incidente em um cabaré local, e “Vaquejada Sinistra”, entre outros títulos. Estima-se que ele tenha produzido aproximadamente 200 livros.
Outro nome notável é Erotildes Miranda, que produziu cerca de 40 cordéis, sendo reconhecido por sua qualidade literária. Rodolfo Coelho Cavalcante, um alagoano que se radicou na Bahia, também é lembrado como um dos maiores cordelistas do estado.
Novas Gerações e a Reinvenção do Cordel
O cordel contemporâneo em Feira de Santana se apresenta de maneira positiva, com novos autores como Nivaldo Cruz, Garotinho, Adauto Borges, Ademar, Patrícia Oliveira e João Ramos. A produção atual revela uma mudança temática significativa, com ênfase em histórias infantis e educativas, que vêm gradualmente substituindo as narrativas sobre cangaço e conflitos violentos. Essa nova abordagem permite que muitos textos sejam utilizados em ambientes escolares, ampliando o acesso à literatura de cordel e contribuindo para sua renovação.
A Importância Cultural do Cordel
A manutenção do cordel em Feira de Santana prova a força da cultura popular como um componente fundamental da identidade local. Mais do que apenas uma manifestação folclórica, essa forma de arte serviu historicamente como um meio de comunicação, memória e interpretação da realidade social, especialmente para aqueles marginalizados pelos meios de comunicação tradicionais.
Entretanto, o reconhecimento institucional dessa tradição enfrenta desafios. Embora existam iniciativas que buscam valorizar o cordel, a preservação de acervos, o estímulo à produção autoral e a integração às políticas educacionais necessitam de um suporte público mais robusto.
Ao se adaptar a novos temas e formatos, o cordel demonstra uma incrível capacidade de resiliência sem perder sua essência. Essa vitalidade reforça seu papel como patrimônio cultural vivo, cuja preservação exige não apenas reconhecimento simbólico, mas também políticas culturais consistentes e duradouras.
