Análise do Cenário Atual no Agronegócio
O ano de 2026 marcará a continuidade das consequências do que foi vivido entre 2021 e 2023, na visão do professor Marcos Jank, do Insper. Esse período foi caracterizado por uma série de acontecimentos que mudaram o cenário agrícola: a pandemia de COVID-19, desajustes nas cadeias de fornecimento, a guerra na Ucrânia e uma severa crise agrícola na Argentina, que impactou diretamente a produção e a oferta. Esses fatores resultaram em um aumento significativo nos preços das principais commodities agrícolas, proporcionando margens mais confortáveis para os produtores, um momento que foi chamado pelo Santander de “dias de ouro”.
Desde 2024, a realidade se alterou drasticamente. Com a queda nos preços das commodities e a desvalorização do dólar, os produtores enfrentam um cenário de altos custos e margens reduzidas. “Estamos em uma fase onde a situação se tornou mais complexa, marcada por elevada taxa de juros e muitos casos de recuperação judicial”, comentou Jank em entrevista ao Money Times. Ele alertou que, após um período de bonança, o setor agora enfrenta o que ele descreve como uma ‘tempestade perfeita’.
Impactos das Taxas de Juros e Endividamento
Jank destaca que nem todo segmento do agronegócio é afetado de maneira uniforme por essa crise. Os produtores que enfrentam os maiores desafios são aqueles que se alavancaram excessivamente, como aqueles que arrendaram terras a valores altos, adquiriram propriedades caras ou investiram inusitadamente em máquinas. “A pressão é maior sobre aqueles com alto nível de endividamento”, explicou o professor. Para esses produtores, a combinação de juros altos e margens apertadas tem sido um fator decisivo para a dificuldade enfrentada no setor.
A perspectiva é que essa fase de ajuste continue ao longo de 2026, afetando especialmente os que não se prepararam para enfrentar momentos de crise. “O cenário de 2025 já foi desafiador, e continuaremos a enfrentar dificuldades”, pontuou Jank.
Diversidade de Resultados no Setor Agrícola
O panorama atual não é homogêneo e varia conforme a commodity em questão. Recentemente, o Brasil vivenciou uma supersafra, com recordes de produção de soja e milho, alcançando cerca de 170 milhões e 140 milhões de toneladas, respectivamente. Essa boa colheita é benéfica para quem atua na produção de proteína animal, como aves e suínos, mas pode pressionar a cadeia produtiva de grãos.
“Enquanto o café tem demonstrado um desempenho satisfatório, o açúcar enfrenta dificuldades, e as carnes de pequenos animais apresentam um desempenho relativamente melhor. No entanto, soja e milho estão passando por um momento complicado. Portanto, é preciso entender que existem sempre ganhadores e perdedores em um cenário como esse”, enfatizou Jank.
Oportunidades em Meio à Crise
Apesar dos desafios, o professor do Insper acredita que produtores que mantêm uma boa gestão e um nível equilibrado de endividamento têm a chance de não apenas continuar a produzir com lucro, mas também de expandir seus negócios. “Crises de preços muitas vezes abrem oportunidades para aquisição de ativos a preços mais baixos. O ambiente atual é heterogêneo: enquanto alguns produtores experimentarão crescimentos, outros poderão ser severamente impactados”, observou Jank.
Ele alerta, porém, que o cenário atual é indiscutivelmente pior do que o dos últimos anos, especialmente para o setor de grãos, que vinha apresentando resultados positivos de forma contínua. “Estamos passando por um processo de ajuste, um ‘freio de arrumação’, e não uma parada abrupta, após um ciclo de crescimento acelerado”, concluiu.
