Feira de Santana: Um Berço de Pioneirismo e Cultura
“Pense num absurdo, na Bahia tem um precedente”. Essa frase do governador Otávio Mangabeira ecoa forte em Feira de Santana, a segunda maior cidade do estado. Com mais de 616 mil habitantes, a Princesa do Sertão é sinônimo de inovação e tendências.
De festividades como o carnaval fora de época às crises de saúde, Feira sempre se destaca. A cidade não apenas viveu momentos marcantes, como foi pioneira em várias situações. Por exemplo, no recente episódio de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas, a cidade registrou a primeira morte por ingestão acidental. O paciente, de 56 anos, morreu após ser atendido na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Queimadinha, em 3 de outubro.
Esse não foi o único episódio de relevância em saúde pública. Em 2020, o coronavírus fez seu primeiro registro na Bahia exatamente em Feira, quando uma paciente de 34 anos, que havia viajado à Itália, testou positivo antes mesmo da Organização Mundial da Saúde declarar pandemia.
O carnaval de Feira, por sua vez, tem uma história digna de destaque. Em 1937, a cidade foi palco da primeira Micareta do Brasil, idealizada por Maneca Ferreira e o professor Antônio Garcia. Após o cancelamento do Carnaval devido à chuva, Maneca ficou insatisfeito e conseguiu mudar a data da festa, que acabou se tornando um sucesso nacional.
Intercâmbio Cultural e Expressões Artísticas
Entre os que celebram a cultura feirense está Márcio Junqueira, professor e artista visual. Para ele, o pioneirismo da cidade está ligado à sua localização, um entroncamento rodoviário no Brasil, que faz com que as pessoas sempre estejam em busca de um futuro melhor. “O afastamento do litoral traz uma peculiaridade que gera angústia e desejo de intervenção”, explica.
Uyatã Rayara, músico e documentarista, complementa a ideia, ressaltando a pluralidade cultural da cidade. Segundo ele, Feira de Santana é uma encruzilhada onde diferentes culturas se encontram e se mesclam. Uyatã trabalhou em documentários que celebram a cultura local, como Batuques da Fêra.
Manalula, arquiteta e criadora de conteúdo, também destaca a rica história da cidade. Ela menciona Rollie E. Poppino, o primeiro historiador notório de Feira, que, na década de 1950, escreveu uma tese que se transformou no livro “Feira de Santana”. A obra destaca o impacto cultural e histórico da cidade, com suas ruas que carregam histórias que precisam ser valorizadas.
Festas, Músicas e um Legado Cultural Inigualável
Além da Micareta, Feira é berço de grandes nomes da música. Luiz Caldas, por exemplo, é reconhecido como o pai da Axé Music, misturando ritmos diversificados e revolucionando a indústria musical. Outro grande artista nascido na cidade é Russo Passapusso, da famosa banda BaianaSystem, que ressignificou o Carnaval com sua fusão de ritmos, criando novos hinos da música popular.
A cidade também tem um forte vínculo com o cinema. Olney São Paulo, cineasta e um dos maiores expoentes do documentário, nasceu na região e influenciou gerações. Seu trabalho, que inclui documentários sobre Feira de Santana, eterniza a realidade local e contribui para a valorização da cultura baiana.
Entre as inúmeras histórias que cercam a cidade, há espaços como o Feiraguay, um centro comercial vibrante que atrai turistas e locais. Com mais de 3 mil vendedores, é o maior centro de comércio popular do Norte/Nordeste, oferecendo de tudo um pouco, desde roupas a utensílios para o lar.
Reconhecimento e Representatividade
Apesar de toda essa efervescência cultural, muitos artistas de Feira ainda lutam por reconhecimento. Junqueira aponta que a cidade, embora rica em talentos como Luiz Caldas e Rachel Reis, ainda carece de um maior apoio e valorização aos seus artistas. Para ele, Feira tem um longo caminho a percorrer no reconhecimento de sua história e de seus personagens.
Com uma nova geração de criadores, como Manalula, que busca ocupar espaços nas redes sociais para valorizar a história e a cultura local, espera-se que essa visibilidade ajude a mudar a percepção sobre a cidade e seus artistas. Manalula tem compartilhado sua paixão pela cidade, conquistando seguidores e promovendo o patrimônio cultural de Feira. “É importante reconhecer e valorizar as raízes da nossa história, trazendo à tona as vozes que muitas vezes ficam silenciadas”, conclui.
