A Importância dos Gargalos Marítimos
A história nos ensina uma lição valiosa desde o século XV: quem controla os principais estreitos marítimos, controla o comércio global, e quem controla o comércio molda o poder internacional. Essa realidade ficou clara para os portugueses, que dominaram pontos estratégicos como Ormuz, Goa e Malaca. Hoje, depois de seis séculos, a geopolítica ainda gira em torno de algumas passagens críticas. A recente crise no Golfo Pérsico, em março de 2026, destaca essa lição que parece nunca ter sido superada.
Atualmente, cerca de 80% do comércio mundial, em termos de volume, é realizado por via marítima, e essa movimentação depende de poucos gargalos geográficos. Destacam-se o Estreito de Ormuz, Bab-el-Mandeb, Suez, Malaca, Bósforo, Gibraltar e o Canal do Panamá. Esses locais, conhecidos como chokepoints, são pontos de estrangulamento onde a geografia se transforma em poder. O controle sobre essas passagens não exige necessariamente um grande orçamento militar; frequentemente, é suficiente ter uma localização geográfica favorável e a determinação para usá-la.
Impacto da Geopolítica no Agronegócio
Nos mares do mundo, três estreitos têm grande importância estratégica: Bab-el-Mandeb, Ormuz e Malaca. Cerca de 70% do petróleo global e 50% do tráfego de contêineres passam por pelo menos um desses pontos estratégicos. O fechamento de qualquer um deles gera efeitos em cadeia, impactando mercados de energia, alimentos e insumos em nível global. No Brasil, existe uma tendência de se preocupar apenas com o acesso aos mercados consumidores de produtos do agronegócio, sem considerar a vulnerabilidade nas fontes de insumos. A crise de 2026 evidenciou essa fragilidade, que se concentra em dois aspectos principais: derivados de petróleo e fertilizantes.
O Brasil, atualmente, é uma potência na produção de petróleo, alcançando um recorde de 3,8 milhões de barris por dia em 2025, impulsionado por explorações no pré-sal. Contudo, o país também se destaca como o sétimo maior consumidor mundial, com um consumo diário de cerca de 2,6 milhões de barris. Embora haja superávit de petróleo bruto, há uma carência significativa na produção de derivados. A capacidade de refino do Brasil não é suficiente para processar todo o petróleo pesado proveniente do pré-sal em derivados leves, como diesel e querosene de aviação.
Um dado alarmante sobre essa dependência é que 25% do consumo interno de diesel é importado, e, nos últimos dez anos, as importações de diesel quase triplicaram. Para o agronegócio, essa informação é crucial, uma vez que o diesel é o combustível usado em diversas etapas, como plantio, colheita e transporte. Nas vendas internas de GLP, as importações também correspondem a 25%, e, para o querosene de aviação, a dependência externa chega a 15%.
A Fragilidade nos Fertilizantes
A situação dos fertilizantes é ainda mais crítica. O Brasil importa impressionantes 85% dos fertilizantes que utiliza, e o fechamento do Estreito de Ormuz em 2026 tornou ainda mais evidente essa dependência. A região do Golfo, que abriga algumas das maiores fábricas de fertilizantes do mundo, canaliza cerca de um terço do comércio marítimo global de produtos como amônia e ureia. Com a crise em Ormuz, os preços da ureia dispararam, dobrando em poucos dias, um impacto que se agravou em um momento já crítico para importações, que chegaram a 45,5 milhões de toneladas em 2025.
Essa situação é uma ameaça direta ao Brasil, um dos principais exportadores de soja, milho, e outras commodities agrícolas. Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 12,6 bilhões em produtos agropecuários para o Oriente Médio, com o Irã recebendo US$ 3 bilhões, incluindo 9 milhões de toneladas de milho.
Além do aumento nos fretes e seguros marítimos, a duração do conflito no Golfo Pérsico será decisiva. Se o estreito for reaberto rapidamente, os efeitos mais severos poderão ser sentidos nos Estados Unidos, que se preparam para o período crítico de plantio. No entanto, qualquer demora pode comprometer a safra 2026/2027.
Um cenário de preços altos de gasolina e diesel pode, paradoxalmente, beneficiar o uso de etanol de cana e milho, bem como biodiesel. Por muitos anos, esses combustíveis foram vistos como uma transição energética, mas a crise atual os recoloca no foco da segurança energética. O Brasil, que já mescla 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel, está reduzindo sua vulnerabilidade a choques geopolíticos, mostrando que essas alternativas são não apenas sustentáveis, mas também cruciais em momentos de crise.
Uma Necessidade de Mudanças Estrutural
Em suma, um país que produz 350 milhões de toneladas de grãos por safra e que alimenta mais de 1 bilhão de pessoas não pode continuar a depender de 85% de insumos externos em fertilizantes. A diversificação de fornecedores, a produção interna e a criação de reservas estratégicas são ações indispensáveis para mitigar essa vulnerabilidade. A geopolítica, que pode mudar rapidamente, exige que nossa estratégia de segurança de abastecimento seja reavaliada. O agronegócio brasileiro, responsável por alimentar o mundo, não pode ter seu calcanhar de Aquiles exposto a cada nova turbulência nos gargalos do comércio global.
