Os Obstáculos da Política de Resíduos no Pará
A gestão de resíduos sólidos no estado do Pará enfrenta uma grave crise, evidenciada pela falta de aterros sanitários e a dependência dos lixões a céu aberto. Esta realidade foi exposta por Pedro Maranhão, presidente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), em uma entrevista ao Grupo Liberal durante sua visita a Belém. Na ocasião, o especialista analisou a situação atual e discutiu estratégias para a modernização da destinação de resíduos na região Norte do Brasil.
Maranhão apontou que a ausência de infraestrutura adequada e a falta de conscientização entre os gestores públicos são os principais entraves enfrentados. Segundo ele, os lixões geram impactos ambientais severos, como a contaminação do lençol freático pelo chorume e o aumento de doenças. Uma das soluções propostas é a regionalização dos aterros sanitários, que permitiria a criação de estruturas capazes de atender consórcios de municípios em um raio de até 100 quilômetros. Essa estratégia visa diminuir os custos operacionais e logísticos envolvidos no transporte de resíduos.
A Iniciativa Privada e a Sustentabilidade dos Aterros
O presidente da Abrema também ressaltou que a maioria dos aterros no Brasil é gerida pela iniciativa privada, devido ao alto custo de manutenção. Ele destacou a necessidade de concessões municipais e a cobrança de tarifas para assegurar a viabilidade econômica do serviço. Além disso, enfatizou que os aterros modernos não são apenas locais de descarte, mas sim indústrias que têm potencial para gerar biogás e biometano, combustíveis renováveis que podem ser utilizados em veículos, indústrias e residências, contribuindo para a descarbonização da economia.
A entrevista revela um panorama preocupante: no estado do Pará, com aproximadamente 150 municípios e uma população de cerca de 8 milhões de pessoas, apenas um aterro está ativo, em fase de fechamento. Maranhão frisou a urgência de encontrar alternativas para atender a demanda, especialmente considerando que os lixões têm um impacto direto na saúde pública e no meio ambiente.
Conscientização e Regionalização: Caminhos para a Solução
Durante a conversa, Maranhão destacou a necessidade de conscientizar os gestores municipais sobre a importância de uma destinação ecologicamente correta dos resíduos. Ele fez uma analogia com a medicina, afirmando que criar um aterro sanitário não é tão caro quanto mantê-lo funcionando de forma adequada. O foco deve estar na operação, o que torna a regionalização uma solução viável para atender a várias cidades e reduzir custos.
Diante do cenário atual, o presidente da Abrema propôs um mapeamento das cidades para identificar os locais mais adequados para a construção de novos aterros. O objetivo é que cada aterro sirva a um número de municípios próximo, dentro do limite de 100 quilômetros, para garantir eficiência econômica na operação.
Impacts e Benefícios da Modernização dos Resíduos
Maranhão também abordou os benefícios ambientais da modernização da gestão de resíduos. Ele lembrou que os lixões emitem metano, um gás que polui 28 vezes mais que o dióxido de carbono. Em contrapartida, aterros bem administrados conseguem coletar esse gás e convertê-lo em biogás, que pode ser transformado em biometano, um combustível que pode contribuir significativamente para a matriz energética e para o cumprimento das metas de descarbonização estabelecidas no Acordo de Paris.
Além disso, a criação de aterros sanitários modernos possibilita a geração de empregos, especialmente nas cooperativas de reciclagem. Maranhão destacou a importância de um projeto que inclua a educação da população sobre a separação de resíduos e o incentivo à reciclagem, fundamentais para o sucesso da gestão de resíduos.
Desafios na Região Norte e a Necessidade de Ação Coletiva
A região Norte do Brasil, segundo Maranhão, enfrenta desafios logísticos e estruturais que a colocam entre as piores do país em relação à gestão de resíduos. No entanto, ele acredita que, com a colaboração entre a iniciativa privada, os governos e a sociedade civil, é possível superar esses obstáculos. Em sua visão, a falta de soluções para os problemas de resíduos é uma questão desrespeitosa, considerando que a tecnologia já existe para resolver a questão.
Por fim, o presidente da Abrema fez um apelo à iniciativa privada e aos gestores públicos da região Norte, enfatizando a necessidade de sensibilidade e envolvimento no problema. A modernização da gestão de resíduos não é apenas uma questão ambiental, mas uma oportunidade de promover saúde pública e desenvolvimento sustentável na região.
