Análise do Cenário Internacional
A recente reconfiguração nas relações entre os Estados Unidos e a Venezuela traz à tona um debate crucial: o agronegócio brasileiro não pode mais ser visto apenas sob a perspectiva produtiva. Para especialistas, as alterações no cenário geopolítico tendem a gerar impactos significativos no setor, que vão além das fronteiras da simples produção agrícola.
Os efeitos nas dinâmicas de comércio, preços de insumos e commodities são diretos e indiscutíveis. Ao considerar possíveis mudanças, como a flexibilização de sanções ou a retomada das exportações venezuelanas em setores específicos, uma maior pressão competitiva pode se manifestar em mercados regionais. Isso, por sua vez, pode levar a rearranjos nas rotas comerciais, afetando a logística do agronegócio brasileiro.
Cenário de Insegurança e Oportunidades
Por outro lado, a manutenção de tensões prolongadas no cenário internacional pode reforçar a posição do Brasil como fornecedor confiável de alimentos e proteínas animais. Isso é especialmente relevante em um contexto global marcado por inseguranças geopolíticas e pela constante busca de estabilidade no fornecimento de produtos agrícolas e proteína.
Além disso, as flutuações cambiais e as variações nos preços de fertilizantes, combustíveis e fretes internacionais têm um impacto direto nos custos de produção do agronegócio. Os efeitos, no entanto, não são homogêneos e variam conforme o setor — avicultura, suinocultura, bovinocultura e aquicultura apresentam diferentes graus de vulnerabilidade e adaptação a essas alterações.
A Gestão de Riscos e Compliance no Agronegócio
De acordo com André Aidar, sócio e Head de Direito do Agronegócio no Lara Martins Advogados, a chave para a prevenção eficaz é uma abordagem estratégica e jurídica. Ele destaca a importância de o agronegócio brasileiro reforçar sua gestão de riscos, diversificando mercados e reduzindo a dependência de parcerias comerciais limitadas. “É essencial um monitoramento contínuo das mudanças regulatórias e geopolíticas, especialmente no que tange a sanções internacionais, barreiras comerciais e exigências sanitárias, que estão em constante evolução”, afirmou Aidar.
Aidar sugere a revisão de contratos, incluindo cláusulas robustas que previnam riscos, como força maior e hardship, além de mecanismos que viabilizem a recomposição do equilíbrio econômico em acordos de fornecimento e exportação. O planejamento logístico e financeiro também deve estar alinhado à volatilidade dos fretes, seguros e custos de energia.
Rastreabilidade como Diferencial Competitivo
Em um ambiente de incertezas, o compliance e a rastreabilidade assumem um papel ainda mais crucial, funcionando como um diferencial competitivo e facilitador de acesso a mercados mais exigentes. “Uma atuação preventiva por meio de assessoria jurídica, que integre análises econômicas, contratuais e regulatórias, é fundamental para antecipar impactos e evitar reações meramente reativas a crises”, ressalta Aidar.
Em suma, a análise desse contexto internacional evidencia que o agronegócio não pode ser tratado apenas como uma atividade produtiva isolada. A interpretação jurídica-econômica das mudanças no cenário global se tornou um elemento central para a competitividade e sustentabilidade do setor. O agronegócio brasileiro deve, portanto, se preparar para um futuro onde a gestão de riscos e a adaptação às mudanças internacionais são essenciais.
