Lula e a Esquerda Dominam Debate Digital Sobre ‘O Agente Secreto’
Um ano após o estrondoso sucesso de “Ainda Estou Aqui”, o longa-metragem “O Agente Secreto” reacendeu a disputa política no Brasil, especialmente entre o governo Lula e o bolsonarismo. As indicações do filme a quatro categorias do Oscar 2026, anunciadas nesta quinta-feira, destacam não apenas o talento cinematográfico, mas também a polarização que permeia a cultura nacional. Segundo uma pesquisa da consultoria Bites, encomendada pelo GLOBO, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se destacou por ter o post mais engajado sobre o filme, com impressionantes 1,2 milhão de curtidas. Além disso, Lula figurou outras três vezes entre os dez posts de maior impacto.
O filme, que recebe elogios da crítica, foi indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Desde 1º de janeiro, foram registradas 3,37 milhões de menções à produção na internet, totalizando quase 70 milhões de interações.
O Papel da Esquerda nas Redes Sociais
O levantamento revela que, assim como no ano anterior, quando “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar, a esquerda está se saindo melhor ao capitalizar sobre o sucesso dos filmes brasileiros. Além das publicações de Lula, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a ex-parlamentar Manuela D’Ávila (PSOL) e o prefeito de Recife, João Campos (PSB) também destacam-se entre as postagens mais engajadas.
A direita, por sua vez, não conseguiu criar uma narrativa forte contra o filme. O deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura durante o governo Jair Bolsonaro, teve a publicação de maior repercussão, defendendo os investimentos do governo anterior na cultura. Contudo, sua mensagem não ressoou com a população.
André Eler, diretor-técnico da Bites, comenta: “O bolsonarismo não conseguiu emplacar um discurso forte contra o filme. No passado, figuras da direita defendiam uma proteção ao Brasil no Oscar, mas agora os ataques se voltaram para Moura e o filme, que trata da ditadura militar, sem grande efeito”. Essa falta de ressonância permite que a esquerda capitalize melhor a pauta positiva do cinema nacional.
O Apoio do Planalto
Desde o início, o Planalto demonstrou apoio à campanha de “O Agente Secreto”. Em agosto, Lula e a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, receberam Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho para uma sessão especial no Palácio da Alvorada. Neste ano, o presidente e Janja têm feito 19 postagens sobre o filme, totalizando 3,4 milhões de interações. Entre os que criticaram Wagner Moura está o futuro presidenciável Renan Santos (Missão), mas sua repercussão foi bastante baixa.
O filme retrata a história de Marcelo, interpretado por Wagner Moura, que retorna ao Recife em busca de paz e reconciliação com seu filho. Ambientado no Brasil de 1977, a produção critica a ditadura militar. O auge das menções nas redes sociais aconteceu nos dias 11 e 12 deste mês, após a vitória do filme na categoria internacional do Globo de Ouro, além de já ter conquistado o prêmio de filme estrangeiro no “Critics Choice Awards”.
Críticas ao Governo Bolsonaro Durante a Campanha
A equipe de “O Agente Secreto” não hesitou em criticar o governo de Jair Bolsonaro durante sua campanha internacional. O diretor Kleber Mendonça Filho fez um discurso contundente ao receber o Globo de Ouro, mencionando a guinada da política brasileira para a direita nos últimos dez anos. “O ex-presidente está agora na prisão. Ele foi irresponsável por não liderar o país”, afirmou.
Wagner Moura, por sua vez, ironizou a gestão bolsonarista, agradecendo indiretamente a Bolsonaro por ter motivado a equipe a refletir sobre a ditadura militar. “O filme surgiu a partir da perplexidade diante do que ocorreu no Brasil entre 2018 e 2022”, declarou em entrevista ao programa americano “The Daily Show”.
Política e Cultura em Debate
O cientista político Fábio Vasconcellos observa que a polarização em torno de questões culturais é uma tendência nas democracias ocidentais. Segundo ele, o debate público tem se deslocado para um modelo em que afetos e identidades se sobrepõem a argumentos racionais, especialmente com a ascensão da comunicação digital.
A cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, complementa afirmando que o bolsonarismo se articula contra a internacionalização do cinema nacional, apoiando-se em teorias conspiratórias que falam sobre dominação da esquerda e ameaças à civilização ocidental. Ela observa que o cinema brasileiro, como pilar cultural, sofreu com a redução de recursos e a criminalização da classe artística durante o governo Bolsonaro.
