A Nova Consultoria Política de Pablo Marçal
Documentos obtidos pelo GLOBO e pela rádio CBN revelam que o empresário Pablo Marçal, embora inelegível, está se movimentando no cenário político com a criação de duas empresas de publicidade e treinamento, abertas no ano passado em São Paulo. Dentre elas, destaca-se a Unipoli, abreviação de “Universidade Política”, que oferece cursos online por R$ 496. Segundo a plataforma, muitos desses temas não são abordados de maneira adequada nas escolas e, quando são, frequentemente o são de forma ideológica.
A iniciativa, inicialmente voltada para cursos de curta duração, foi lançada em um evento realizado em Alphaville em novembro de 2022, intitulado “Como destravar o Brasil”. Informações levantadas pela reportagem indicam que a consultoria faz parte de um novo projeto chamado “Máquina de Votos”, que apresenta um logotipo estilizado com a letra “M” e um enfoque em estratégias digitais. Embora Marçal tenha se recusado a divulgar a lista de clientes, afirmou que ela inclui candidatos a cargos de deputado e ao Executivo.
— Deixa eu falar uma coisa, eu estou esperando ninguém fazer nada não, eu estou levantando um batalhão já faz tempo. Essa eleição agora, nós vamos tomar o parlamento inteiro. Eu vou liberar várias coisas na próxima eleição, nós vamos fazer festa no Brasil inteiro. O estado que não tiver nenhum prefeito do PT, nós vamos matar, assim, umas cem cabeças de gado, fazer um terror, festa de sete dias em cada estado onde não tiver esse povo — declarou Marçal durante sua palestra no evento.
Conexões Políticas e Polêmicas
A página do novo negócio de Marçal no Instagram, que ainda é pouco divulgada, conta com apenas 25 seguidores, entre eles o ex-deputado estadual Frederico D’Ávila (PL-SP), que possui boa relação com o agronegócio paulista. D’Ávila confirmou estar em negociações e ficou aguardando o envio da proposta. Ele tentava uma vaga na Câmara há quatro anos, após um período conturbado na Assembleia Legislativa, e não obteve sucesso. Também estão relacionados à conta pessoas ligadas ao PP de São Paulo, mas o presidente estadual do partido, deputado federal Maurício Neves, não se pronunciou sobre qualquer conexão com Marçal.
Marçal, que foi candidato a prefeito de São Paulo em 2024, adotou uma postura controversa durante sua campanha. Ele fez acusações infundadas contra o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), alegando que Boulos usava substâncias ilícitas e, para tanto, divulgou um laudo falso. A campanha foi marcada por episódios tumultuados, incluindo a agressão a um marqueteiro rival e um confronto físico com o apresentador José Luiz Datena (PSDB).
O empresário justificou suas atitudes afirmando que precisava “agir como um idiota” para ganhar visibilidade, visto que seu concorrente dispunha de mais recursos. Ele acabou terminando a eleição em terceiro lugar, recebendo uma quantidade de votos relativamente baixa. Posteriormente, foi condenado à inelegibilidade em instâncias judiciais devido a práticas inadequadas durante sua pré-campanha, incluindo a promoção de “campeonatos de cortes” na plataforma Discord. Com promessa de remuneração, contas anônimas se encarregavam de viralizar vídeos relacionados à sua imagem na internet. Marçal já anunciou que recorrerá ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Assessoria Política e Restrições Legais
Além de Marçal e Sabará, outros professores vinculados ao curso incluem Rodrigo Kherlakian, empreendedor que se apresenta como filósofo estoico, e Daniel Gonzales, que promove técnicas de neurociência nas escolas e mantém uma página polêmica no Twitter. Entretanto, apenas Sabará figura como sócio-administrador da empresa. A assessoria de Marçal confirmou a participação do influenciador na comercialização dos cursos.
Especialistas em Direito Eleitoral afirmam que influenciadores têm permissão para atuar durante as eleições, inclusive oferecendo serviços de assessoria política e marketing. No entanto, é proibido cobrar por exposição nas próprias redes sociais ou obter qualquer tipo de vantagem em troca de apoio. Dessa forma, tanto Sabará quanto Marçal podem se oferecer como consultores para as eleições de 2026, desde que não façam propaganda explícita dos candidatos com quem firmaram acordos comerciais.
Desconfiança no Cenário Político
A aproximação de Sabará com a campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem causado desconforto entre os aliados do governador. Marçal, em 2024, foi adversário de Ricardo Nunes, que contava com o apoio formal do ex-presidente Jair Bolsonaro e do atual governador paulista.
Ao longo da campanha, Marçal se posicionou como um autêntico representante da direita, tentando afastar Nunes. Ele mesmo afirmou:
— Eu falei para ele que 100% das vezes em que tocar no meu nome, eu vou devolver energia. Se ele chamou o Nunes de derretendo, vou deixar aqui, carinhosamente, um apelido para ele. Ele é o goiabinha. A dupla bananinha e goiabinha.
Em dezembro do último ano, Flávio Bolsonaro surpreendeu ao comparecer a um evento organizado por Marçal, onde recebeu o apoio do influenciador. A parceria levanta dúvidas sobre a possibilidade de Tarcísio dividir um palanque com Marçal, assim como o prefeito de São Paulo. Marçal declarou: — Vamos apoiar Flávio Bolsonaro para presidente do Brasil. Chega de PT, chega de Lula. Ele é o Bolsonaro que a gente sempre sonhou.
Sabará também buscou uma reunião com o governador em janeiro, atuando como uma espécie de emissário de Flávio. Durante a conversa, ele pediu que Tarcísio fizesse postagens de apoio explícito a Flávio e ajudasse nas articulações políticas. Segundo fontes, o governador afirmou que a campanha ainda não havia começado e que o senador teria todo o apoio quando fosse necessário.
Aliados de Tarcísio afirmam, sob condição de anonimato, que Flávio parece estar ampliando sua influência neste momento, com a intenção de restringir em um futuro próximo, o que sugere que Sabará não deve ser uma presença constante na campanha. Antes de se envolver com Marçal, Sabará foi secretário de Assistência Social na prefeitura de São Paulo durante a gestão de João Doria, tentou se candidatar à prefeitura pelo Novo em 2020, e presidiu o conselho do Fundo Social do estado.
