Um Espaço de Transformação Cultural
No coração de um bairro marcado por estigmas e desafios sociais, a Pinacoteca do Beiru se destaca como um farol de criatividade e aprendizado. Desde sua fundação, o espaço oferece uma variedade de oficinas, exposições e atividades que buscam envolver tanto moradores quanto visitantes na essência da arte. Mais do que um simples local de lazer, a Pinacoteca se torna um ponto de encontro para a formação cultural de crianças, jovens e adultos, ao unir cultura, memória e educação.
Wanderson Souza, 17 anos e conhecido como Lauro, é um mobilizador cultural da Pinacoteca. Morador do bairro, ele chegou a frequentar as atividades antes mesmo de se tornar parte da equipe. Para Lauro, a experiência no local ampliou suas referências e possibilitou novas perspectivas. “A Pinacoteca me mobilizou e me proporcionou experiências e aprendizados. Fazer parte desse espaço significa ser mobilizado pela arte”, afirma.
Ele ressalta que a Pinacoteca é um espaço aberto e gratuito, fundamental para afastar os jovens da vulnerabilidade social. No entanto, um dos principais desafios ainda é mobilizar a comunidade local, já que nem todos compreendem, a princípio, o valor das atividades culturais.
A História por Trás do Espaço
Fundada em 2021 pelo artista visual Anderson AC, a Pinacoteca do Beiru teve início em seu antigo ateliê de pintura, com a missão de aproximar a arte da população do Cabula e fomentar produções locais. Desde então, o local ainda se transformou em um centro de oficinas, festivais e exposições, contribuindo para a circulação de artistas do bairro e de outras regiões do Brasil.
O nome Beiru é uma homenagem a Gbeiriu, um escravizado que liderou um quilombo no século 19, ressaltando a conexão histórica do bairro com a resistência negra e a cultura local que persiste até hoje.
Atraindo Novas Gerações
A Pinacoteca não atrai apenas os moradores do Beiru, mas também visitantes de outras cidades. Thayane Nascimento, estudante da UFBA que veio de Itacaré, destaca como a experiência de se conectar com um equipamento cultural fora do circuito turístico alterou sua percepção de Salvador. “O local oferece segurança, acolhimento e acesso efetivo à arte. Muitas crianças e adultos saem de lá com novas possibilidades em mente”, destaca.
Mariana Cristina, uma moradora de 15 anos, acrescenta que o espaço ajuda a reforçar a autoestima e o pertencimento cultural. “Quando estou lá, participando das atividades ou admirando as obras, me sinto parte de algo importante. Se eu pudesse dar um conselho para outros jovens, diria: ‘vá conhecer, vai valer a pena’”.
Memória e Resistência Cultural
A professora Janice de Sena Nicoli, uma referência nos estudos sobre o Cabula, enfatiza a importância de espaços como a Pinacoteca para a preservação da memória e da resistência negra. “O Cabula já teve muitos grupos culturais importantes, mas todos enfrentam a falta de apoio. Quando um grupo se silencia, outro surge. A resistência nunca para”, afirma.
Ela insiste que a força da comunidade reside na continuidade da luta pela identidade e pela proteção do território, heranças diretas das comunidades quilombolas que moldaram a região.
Um Centro de Reconstrução Identitária
Talita Cerqueira, produtora cultural e moradora do Cabula, sublinha que a Pinacoteca é mais do que um espaço de arte; é um centro de reconstrução identitária. Desde que começou a trabalhar lá em 2024, ela se deu conta de como conhecer a história do quilombo do Beiru e acompanhar a formação de moradores contém o potencial de transformar a visão sobre o próprio território. “A Pinacoteca veio para valorizar e fortalecer as expressões da periferia, contribuindo para o reconhecimento da memória local e o protagonismo dos moradores. Isso muda a forma como o território é percebido e como os próprios moradores se enxergam, despertando autoestima e transformando olhares”, afirma.
Exposições e Atividades na Pinacoteca
Atualmente, a Pinacoteca do Beiru abriga três exposições simultâneas. O Salão de Artes Visuais, localizado no térreo, exibe 32 obras selecionadas através de edital nacional, incluindo obras concorrentes a prêmios e menções honrosas.
Os premiados foram divulgados em 25 de outubro, incluindo três obras bidimensionais, três tridimensionais e duas de artistas com menos de 18 anos. Entre os selecionados, Omi Bulu apresenta a videoarte “Onda”, que explora os sons do Cabula, enquanto Analú Almeida foi premiada com a obra “Dor Romantizada”. Juliana Souza também foi reconhecida com uma menção honrosa por sua obra “Preto Beiru”.
Essas iniciativas demonstram a relevância da Pinacoteca no cenário artístico nacional, reunindo talentos de diversas localidades, como Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Norte e Mato Grosso do Sul.
A mostra Beiru Criativo ilustra a potência educativa do espaço, onde os moradores aprendem, produzem e expõem seus trabalhos. O primeiro andar, escadarias e áreas externas estão repletos de criações oriundas das oficinas oferecidas na Pinacoteca, como Fotografia, Processos Criativos em Pintura, Pintura Infantil e Serigrafia.
A Pinacoteca do Beiru está situada na Rua Direta de Tancredo Neves, no bairro do Beiru (próximo ao fim da Estrada das Barreiras, esquina com Rua Irmã Dulce). Seu funcionamento é de terça a sábado, das 9h às 19h, com entrada gratuita. Para quem deseja participar das oficinas e atividades, é possível entrar em contato pelo e-mail pinacotecadobeiru@gmail.com, pelo telefone (71) 99166-2445 ou pelas redes sociais, no Instagram @pinacotecadobeiru.
