Impacto da promessa de Flávio Bolsonaro nas demarcações indígenas
Flávio Bolsonaro (PL) declarou que, se eleito, não demarcará nenhuma terra indígena, repetindo a postura adotada por seu pai durante a Presidência da República. Essa promessa colocaria em risco 286 territórios que têm processos de demarcação em andamento no país.
Dentro desse conjunto, 45 terras indígenas já possuem estudos concluídos e aprovados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Outras 73 áreas foram declaradas e tiveram seus limites reconhecidos por portaria do Ministério da Justiça, o que autoriza a demarcação física, etapa que antecede a homologação presidencial. Parte dessas 118 áreas envolve ainda a revisão dos limites de terras anteriormente reconhecidas. Além disso, há 168 áreas em fase de levantamento para identificar e propor seus limites.
Repercussões institucionais e administrativas
Flávio Bolsonaro afirmou publicamente, em 22 de abril, durante a feira Norte Show, em Sinop (MT), que “nenhuma dessas reservas será demarcada se depender do nosso governo”. A campanha do candidato não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre o tema, feitos desde o dia 13.
Para o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, a vitória de Flávio representaria uma ameaça à continuidade da política indigenista atual e poderia levar à revogação de atos aprovados pelo governo em exercício. O ministro destaca que oito terras já estão prontas para o decreto presidencial e outras 20 aguardam portarias declaratórias do Ministério da Justiça previstas para serem publicadas ainda em 2026, com intenção de anúncio pós-eleições.
Leia também: Plano de Flávio Bolsonaro Pode Paralisar 286 Terras Indígenas em Processo de Demarcação
Fonte: triangulodeminas.com.br
Leia também: Plano de Flávio Bolsonaro Pode Paralisar 286 Terras Indígenas e Alterar Política Indigenista
Fonte: belzontenews.com.br
Eloy alerta para o risco de que todo esse trabalho seja revertido com uma única decisão administrativa. Ele também prevê a extinção do Ministério dos Povos Indígenas, criado em 2023 pelo presidente Lula, e o enfraquecimento da Funai, especialmente diante da promessa de reduzir o número de ministérios feita por Flávio Bolsonaro, o que afetaria diretamente a estrutura responsável pela política indígena.
Histórico recente e perspectivas para a política indigenista
A presidente da Funai, Lucia Alberta Andrade Baré, lembra que no governo Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022, nenhuma terra indígena foi homologada. No atual governo Lula, 20 terras já foram oficialmente repassadas aos povos indígenas. “Acabar com uma terra indígena é acabar com os povos indígenas que lá vivem”, afirma Lucia, ressaltando o impacto concreto das decisões administrativas.
O diretor de demarcação da Funai, Manoel Prado, alerta para o aumento da vulnerabilidade das comunidades indígenas caso a política indigenista seja desmantelada. Ele destaca que a erosão dessa política tende a abrir caminho para invasões e conflitos fundiários, agravando a situação dos territórios indígenas.
Autonomia indígena e ameaças econômicas
O programa eleitoral de Flávio Bolsonaro propõe conceder “autonomia” para que indígenas e quilombolas decidam sobre as atividades produtivas permitidas em suas terras, após a homologação. Entre as propostas estão agricultura, mineração, construção de usinas e abertura de estradas, mas sem detalhar como essas decisões seriam tomadas ou quais mudanças legislativas ocorreriam.
Leia também: Plano de Flávio Bolsonaro Pode Parar Demarcação de 286 Terras Indígenas
Fonte: olhardanoticia.com.br
Lucia Baré destaca que o discurso ignora as atividades econômicas já desenvolvidas pelos próprios indígenas, como produção de café e turismo comunitário. Ela vê as propostas como uma ameaça de entrega das terras indígenas a terceiros não indígenas para exploração predatória.
O ministro Eloy Terena reforça que apoiar a produção indígena não exige abandonar a proteção territorial. Programas de crédito e incentivo atendem famílias indígenas e devem respeitar as formas de organização comunitária. Ele cita os arrendamentos de terras para o agronegócio como um exemplo que pode concentrar renda e provocar disputas internas.
Conflitos e pressões em território indígena
Conflitos ligados ao arrendamento de terras, especialmente no Sul do país, mostram os riscos de atividades conduzidas sem salvaguardas coletivas, alerta Lucia. A possibilidade de retrocesso nos direitos indígenas já gera ameaças em várias regiões, conforme relata Eloy Terena.
Lideranças indígenas têm registrado o retorno de invasores a territórios de onde foram retirados, incluindo garimpeiros, madeireiros e criadores de gado. Prefeituras contrárias às ações de fiscalização e remoção de invasores têm aumentado a pressão sobre as autoridades. Essa conjuntura reforça a apreensão sobre os impactos da possível eleição de Flávio Bolsonaro para as políticas indigenistas e os direitos territoriais.
