Crise de Fertilizantes Ameaça a Produção Agrícola
A guerra no Oriente Médio tem provocado uma onda de preocupações no setor agrícola brasileiro, especialmente no que diz respeito ao fornecimento de fertilizantes. Como principal fornecedor do Brasil, a China implementou restrições em suas exportações, o que contribuiu para o aumento significativo dos preços deste insumo essencial desde o início do conflito.
No Brasil, a versatilidade das colheitas é admirada mundialmente, com o país conseguindo realizar duas safras em apenas um ano. A mesma terra que produz soja no verão é utilizada para a colheita de milho no inverno. Essa eficiência é impulsionada por fatores como o clima tropical, a adoção de tecnologias inovadoras e a utilização intensiva de fertilizantes.
Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que “todo o desenvolvimento do ciclo da cultura depende da nutrição através de fertilizantes, dos quais 90% são importados no Brasil. Nos últimos 30 anos, a agricultura cresceu de forma exponencial, mas a produção local de fertilizantes não acompanhou esse crescimento. Utilizamos insumos que são fontes de nitrogênio, fósforo e potássio”.
A transição para alternativas aos fertilizantes químicos não é simples. Diferentemente dos adubos orgânicos, os fertilizantes utilizados na agricultura são derivados de minerais ou gás natural, sendo os nitrogenados aqueles produzidos à base de gás. No entanto, com o conflito no Golfo Pérsico, países como Irã e Catar, que são grandes fornecedores, enfrentam dificuldades devido ao bloqueio de rotas de exportação, notadamente no Estreito de Ormuz.
Os impactos já são visíveis no mercado internacional, onde os preços dos insumos agrícolas dispararam. Dados do setor agropecuário brasileiro mostram que aproximadamente 40% do custo de produção está atrelado à importação de fertilizantes. Economistas alertam que o aumento nos custos só não será repassado ao consumidor final se os estoques dos produtores forem suficientes para durar durante a guerra.
Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global, ressalta: “A maior parte da produção, particularmente da primeira safra, já foi colhida, o que significa que os fertilizantes para essa safra já foram utilizados. A próxima safra deve ocorrer por volta do meio do ano e aqueles produtores que ainda não compraram seus insumos poderão enfrentar dificuldades, dependendo da duração do conflito”.
Em Mato Grosso, por exemplo, um produtor que cultiva milho, soja e algodão decidiu adiar a compra de fertilizantes devido aos altos preços. Vicente Bissoni, diretor comercial de uma empresa agrícola, comentou: “Neste momento estamos em pausa, suspendendo quaisquer negociações de novos contratos para a próxima safra, especialmente em relação aos fertilizantes. Estamos voltando ao básico, analisando as contas para entender quais medidas podemos adotar”.
As implicações da crise no Oriente Médio para o agronegócio brasileiro continuam a se desenvolver, com cada vez mais produtores se preocupando com a viabilidade de suas operações. O setor agrícola, vital para a economia do país, aguarda ansiosamente por soluções que possam mitigar os efeitos da escassez de fertilizantes e assegurar as colheitas futuras.
