Protestos em Diversas Capitais
A extrema-direita retoma as ruas hoje com a segunda edição da manifestação “Acorda Brasil”. O ato principal está programado para acontecer na Avenida Paulista, em São Paulo, a partir das 14h, mas protestos também estão sendo organizados em várias outras capitais, incluindo Brasília, Aracaju, Belo Horizonte, Blumenau, Campo Grande, Rio de Janeiro, Curitiba, Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza e Goiânia, além de grandes cidades como Vila Velha (ES), Uberlândia (MG), Chapecó (SC) e Feira de Santana (BA). A pauta central permanece a mesma da manifestação anterior, realizada em 25 de janeiro na capital federal, que contou com a presença de cerca de 18 mil pessoas, mesmo sob uma intensa chuva. Naquela ocasião, um raio atingiu o local, deixando 47 feridos, 11 deles em estado grave, e muitos outros apresentaram hipotermia devido às condições climáticas.
Enquanto a mobilização de hoje difere da caminhada que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) organizou desde Paracatu (MG) até a Praça do Cruzeiro, as demandas continuam as mesmas. Os manifestantes exigem o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a saída do presidente Luiz Inácio Lula da Silva do cargo. Além disso, outros tópicos de interesse do bolsonarismo serão abordados, como a derrubada do veto ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que pode beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Outro tema controverso inclui a investigação de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, cuja comunicação com Antônio Carlos Antunes, o “Careca do INSS”, está sendo analisada pela CPMI do INSS devido a suspeitas de envolvimento em esquemas de descontos ilegais de aposentados e pensionistas.
Expectativa de Presença Política
Assim como em janeiro, a expectativa é que diversos políticos de extrema-direita se juntem ao ato de Nikolas, visando angariar apoio político e eleitoral. Um dos nomes esperados em São Paulo é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que tem sido alvo de críticas do governo federal por não ter apresentado soluções para as encostas que agravaram os danos causados pelas chuvas em Juiz de Fora e Ubá. O governo federal já destinou R$ 3,2 bilhões, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para ajudar na situação.
As chuvas na região resultaram em 70 mortes nestes dois municípios. Zema, também é mencionado como um possível vice de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições presidenciais.
Divisões Internas e Mobilização
No entanto, a mobilização de Nikolas não indica uma unidade entre a extrema-direita e a direita em torno de um único projeto. Recentemente, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, criticou Nikolas e a ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro, por não apoiarem abertamente a pré-candidatura de Flávio. Enquanto isso, Nikolas respondeu que “Eduardo não está bem”.
Nos bastidores do PL, onde atuam tanto Nikolas quanto Flávio, essas desavenças são vistas com preocupação. Aparentemente, a família Bolsonaro não aceita a ascensão de novas lideranças sem o seu aval, o que pode gerar atritos em um ambiente já conturbado.
Impacto das Mobilizações
Apesar da diminuição na participação do público em recentes mobilizações, especialistas afirmam que os protestos ainda desempenham um papel crucial ao alimentar discursos radicais contra as instituições e manter a militância da extrema-direita ativa, além de gerar conteúdos que viralizam nas redes sociais. O deputado Marcel van Hattem (RS), líder do Novo na Câmara, também se manifestou, afirmando que a manifestação é uma forma de reclamar contra abusos e corrupção no país, exigindo a abertura de CPIs no Congresso, inclusive a do Abuso de Autoridade, de sua autoria. “Essa manifestação é um basta aos abusos, à corrupção e uma exigência clara pela abertura das CPIs no Congresso”, declarou.
A presidente da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Afav), Gabriela Ritter, comentou sobre o receio que muitos manifestantes têm de participar de eventos após os tumultos anteriores. “Não vejo um esvaziamento; vejo, sim, algo que pode estar crescendo”, ressaltou. Para o cientista político Rudá Ricci, Nikolas está utilizando táticas de mobilização que lembram os movimentos sociais dos anos 1980, durante a redemocratização, com foco na radicalização da base e pressão sobre as instituições.
Desgaste e Fragmentação
No entanto, o cientista político Leonardo Paz Neves, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), alerta que o desgaste acumulado do bolsonarismo e a prisão do ex-presidente impactaram diretamente a capacidade de mobilização. Neves aponta que a fragmentação na direita, com vários pré-candidatos emergindo, complica a formação de uma liderança unificadora. “A corrida está aberta para definir quem será o sucessor do bolsonarismo”, conclui, apontando que a falta de coesão pode dificultar o fortalecimento da base bolsonarista para as próximas eleições.
