O Crescimento Alarmante nas Recuperações Judiciais
Em 2025, o Brasil presenciou um aumento significativo no número de empresas que solicitaram recuperação judicial. Ao todo, foram 2.466 pedidos, o que representa um crescimento de 13% em comparação ao ano anterior, segundo dados da Serasa Experian. Essa cifra marca o maior número desde que a série histórica teve início em 2012. A alta taxa de juros, que atualmente se encontra em 15% ao ano, tem gerado uma pressão financeira intensa sobre as empresas brasileiras, levando muitas delas a buscar apoio legal para reestruturar suas finanças e continuar operando.
A mesma pesquisa revelou que, em 2025, o total de processos que envolvem grupos empresariais enfrentando dificuldades financeiras atingiu o maior nível em dez anos, com 977 casos registrados, um aumento de 5,5% em relação a 2024. “Quando analisamos apenas o número de CNPJs que solicitaram recuperação judicial, a situação é preocupante”, comentou Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
Contexto Econômico e Comparativo com Anos Anteriores
É importante observar que a metodologia utilizada pela Serasa Experian foi revista, levando em conta tanto o número de empresas que solicitaram recuperação judicial quanto a quantidade de processos. Em 2016, por exemplo, o número total de processos chegou a 1.011, em um cenário econômico caracterizado por uma grave recessão e altos índices de inflação. Atualmente, a situação é um pouco diferente, embora a taxa de juros elevada esteja dificultando a renegociação de dívidas.
Camila explica que, enquanto em 2016 a questão era mais generalizada, abrangendo uma recessão acentuada, o atual cenário apresenta desafios específicos. “Estamos vivendo uma desaceleração econômica, onde a alta taxa de juros encarece o crédito e dificulta o pagamento das dívidas pelas empresas”, afirmou. Além disso, a expectativa é que a taxa básica de juros comece a ser reduzida, embora lentamente, devido a fatores como a inflação global causada pela guerra no Oriente Médio.
A Participação do Agronegócio nos Pedidos de Recuperação
Ao analisar os setores mais afetados, os dados mostram que o agronegócio se destacou em 2025, respondendo por 30,1% dos pedidos de recuperação judicial, totalizando 743 solicitações. Essa participação representa um aumento de 3,8 pontos percentuais em relação ao ano anterior. As empresas do setor de serviços também apresentaram um número significativo, com 739 pedidos, correspondendo a 30% do total.
A evolução do agronegócio é impressionante: em 2012, as empresas do setor representavam apenas 1,3% do total de pedidos de recuperação judicial. Esse aumento reflete a crescente relevância do agronegócio na economia brasileira. Um estudo do banco Itaú aponta que, ao incluir atividades como a produção de insumos e a comercialização, o agronegócio representa cerca de 21% do PIB do país, enquanto a indústria, por sua vez, vem perdendo espaço, caindo de 34,4% para 18,2% no mesmo período.
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar do aumento nos pedidos de recuperação judicial, a taxa de crescimento dessas solicitações tem desacelerado desde 2023, quando houve um crescimento de 36%. Em 2024, esse número caiu para 26%, e em 2025, para 13%. Camila explica que a quantidade de empresas ativas no Brasil tem crescido, o que contribui para o aumento dos pedidos de recuperação judicial, mas a desaceleração também pode ser um indício de que as empresas estão se adaptando ao novo contexto econômico.
Em janeiro de 2026, cerca de 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados, com uma dívida média de mais de R$ 23 mil. Rodrigo Gallegos, especialista em reestruturação de empresas, acredita que o número de pedidos de recuperação judicial deve continuar a aumentar nos próximos meses, especialmente em virtude da alta taxa de juros. Ele alerta que as dificuldades financeiras tendem a persistir, principalmente devido ao ritmo mais lento de redução da Selic, afetada pela instabilidade no cenário internacional.
