Impactos das Ameaças Comerciais nas Relações Brasil-Irã
A recente declaração do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a imposição de tarifas de 25% a países que mantêm relações comerciais com o Irã, já gera apreensão em setores significativos da economia brasileira. Essa medida, caso seja implementada, poderá afetar o superávit comercial do Brasil e a saúde do agronegócio nacional.
Historicamente, o Brasil mantém uma relação sólida com o Irã, sendo uma das poucas nações ocidentais convidadas para a posse do presidente iraniano em 2024. Essa proximidade política, que inclui a articulação brasileira para a inclusão dos iranianos no BRICS, resulta em uma parceria comercial vantajosa. Desde 1989, o Brasil tem registrado superávits consistentes com o Irã, exportando muito mais do que importa.
Nos últimos cinco anos, o saldo comercial favorável ao Brasil atingiu aproximadamente US$ 15 bilhões. Analisando os números anuais, observa-se um crescimento substancial: o fluxo comercial saltou de US$ 1,04 bilhão em 2020 para um pico de US$ 4,15 bilhões em 2022, estabilizando-se em torno de US$ 2,8 bilhões em 2025. O agronegócio, especialmente os setores de proteínas vegetais e grãos, é o mais vulnerável a potenciais sanções americanas, dada a sua predominância nas exportações brasileiras.
Exportações e Importações: O Que Está em Jogo
No ano de 2025, as exportações de milho para o Irã representaram 68% do total, contabilizando cerca de US$ 1,9 bilhão, seguidas pela soja, que teve 19% do total exportado, equivalente a US$ 590 milhões. Por outro lado, as importações brasileiras do Irã são menores, focando principalmente em fertilizantes (US$ 67 milhões) e frutas secas e nozes (US$ 5,8 milhões). Atualmente, o Irã ocupa a quarta posição entre os maiores parceiros comerciais do Brasil no mundo islâmico, ficando atrás apenas de Emirados Árabes, Arábia Saudita e Egito.
O setor produtivo, representado pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), observa a situação com preocupação, especialmente considerando contratos em aberto e programações de navios já em andamento. Contudo, muitos produtores estão céticos em relação à possibilidade de o governo americano efetivamente bloquear a comercialização de alimentos por questões de caráter humanitário, acreditando que medidas assim poderiam afetar o sustento básico da população iraniana.
Reação do Governo Brasileiro e Observações Diplomáticas
Em Brasília, o Itamaraty opta por uma postura cautelosa. A diplomacia brasileira aguarda para ver se as ameaças de Trump se concretizarão antes de tomar qualquer medida oficial. O governo brasileiro prefere observar a situação para verificar se a proposta de sobretaxa de 25% se tornará realidade.
Em relação a questões internas do Irã, como a violenta repressão a protestos, o Brasil expressa seu lamento pelas perdas humanas, mas reitera a necessidade de respeitar a soberania iraniana nas decisões sobre seu próprio futuro. Nesse ínterim, o Palácio do Planalto espera por detalhes técnicos sobre a decisão dos Estados Unidos para elaborar possíveis estratégias de defesa comercial.
