A Relevância da BR-242 na Logística Baiana
A recente publicação do edital para a concessão da Rota dos Sertões, que abrange a BR-116 Norte na Bahia, expõe um cenário preocupante em relação à infraestrutura rodoviária do estado. Essa rodovia, que se estende de Feira de Santana até Salgueiro, em Pernambuco, com um total de 502 km, acaba por ignorar a importância do Polo Juazeiro (BA) / Petrolina (PE). Enquanto isso, a BR-116 Sul, que liga Feira de Santana à divisa com Minas Gerais, saiu de uma concessão problemática em maio de 2025. No entanto, a expectativa é que o edital para uma nova concessão seja publicado apenas em novembro de 2026. É um atraso que não se justifica, considerando que a situação dessas rodovias é crítica há mais de dez anos.
Ademais, a concessão, agora chamada Rota 2 de Julho, não contempla o trecho da BR-324, que conecta Feira de Santana a Salvador, o que é essencial para o acesso à capital e sua Região Metropolitana. A Bahia enfrenta um estrangulamento logístico significativo, especialmente no que diz respeito ao transporte rodoviário, que é o modal predominante no país. Para solucionar essa questão, duas outras rodovias merecem atenção especial: a BR-101, que corre paralela à BR-116 e tem se tornado uma alternativa para o escoamento de cargas, e a BR-242, que cruza a Bahia em uma direção transversal, ligando o Oeste baiano aos portos litorâneos.
Desafios da Infraestrutura no Oeste Baiano
O Oeste da Bahia, região conhecida como Matopiba, é um importante polo de produção agrícola, especialmente de grãos e algodão. No entanto, a economia local enfrenta limitações devido à falta de infraestrutura adequada, principalmente no que diz respeito a transporte e energia. Apesar dos desafios logísticos, a soja produzida nessa região encontrou no Porto Cotegipe, em Salvador, uma saída para escoar parte de sua safra destinada à exportação, totalizando 6,5 milhões de toneladas em 2025. A exportação de algodão também começou a se deslocar do Porto de Santos (SP) para Salvador, reduzindo custos para os produtores. Em 2025, cerca de 20% da safra baiana de algodão já estava sendo exportada através do Tecon-Salvador.
A agilidade nas conexões logísticas é vital, e muitos aguardam ansiosamente a conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). Embora esteja com aproximadamente 72% de suas obras concluídas, o trecho Fiol I, que liga Ilhéus a Caetité, enfrenta paralisações. Por outro lado, o trecho Fiol II, sob a responsabilidade da Infra, acaba de contratar a execução de um trecho de 35 km entre Caetité e Guanambi, com previsão de entrega em 40 meses. Enquanto a ferrovia não é finalizada, a BR-242 se torna uma alternativa essencial, sendo considerada a “salvação da lavoura” pelos produtores e um importante acesso para turistas que desejam explorar a Chapada Diamantina.
A Importância da BR-242 para o Desenvolvimento Local
A rodovia BR-242, que se estende de Luís Eduardo Magalhães até o entroncamento com a BR-116 Sul, no município de Rafael Jambeiro, totaliza cerca de 800 km. A distância até Salvador, via BR-116 e BR-324, é de aproximadamente 953 km. Na ausência de uma ferrovia adequada, essa rodovia se destaca como uma rota vital para o escoamento das safras do Matopiba e para o turismo na Chapada Diamantina, podendo ser batizada de Rota TransBahia.
O PAC contempla, em uma de suas extremidades, a duplicação do trecho entre Luís Eduardo Magalhães e Barreiras. Além disso, o BNDES estuda a concessão integrada de rodovias federais e estaduais na região Oeste, mas esses esforços ainda se mostram insuficientes. Estudos indicam que, apesar de sua importância econômica, a BR-242 não apresenta o volume de tráfego necessário para justificar uma concessão, uma realidade que parece contraditória. A relevância econômica da rodovia deveria, na verdade, garantir sua prioridade, e não o contrário.
Infelizmente, parece haver uma confusão entre os instrumentos de concessão e seus objetivos. A concessão deve ser vista como um meio pelo qual o Estado atrai o setor privado para realizar suas funções. É obrigação do governo garantir a manutenção das rodovias. Se não puder ou não o fizer de forma eficiente, a concessão deve ser uma alternativa, mas nunca deve se transformar em uma forma de abandono.
Necessidade de uma Concessão Eficiente
É imprescindível que o modelo de concessão adotado não seja simplista, mas sim robusto, com a União oferecendo contraprestações adequadas, revisadas periodicamente, para que se adequem ao crescimento do tráfego. A conexão da BR-242 com a BR-116, em Rafael Jambeiro, representa um ponto crítico na logística do tráfego e deve ser contemplada na nova concessão da BR-116. Se não for, que se faça antes que seja tarde.
Portanto, com suas características, importância e desafios, a BR-242 deve ser considerada uma rodovia prioritária e urgente para o estado da Bahia.
Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional e autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.
