Feira de Santana recebe especialista em cidades inteligentes
Feira de Santana recebe nesta semana André Agra, auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB) e coordenador do Espaço Cidadania, referência em cidades inteligentes. Em entrevista ao programa De Olho na Cidade, da Rádio Sociedade News, ele destacou que o conceito de cidade inteligente vai muito além do uso de tecnologias avançadas. Para ele, o foco principal deve ser a melhoria concreta da qualidade de vida da população.
O que define uma cidade inteligente?
Segundo André, uma cidade inteligente é aquela que utiliza seus recursos e estrutura de gestão para resolver problemas e promover desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental. “É uma cidade que precisa desenvolver socialmente, culturalmente, economicamente e de forma sustentável. Então, o que é uma cidade inteligente? A gente resolve seus problemas”, explica.
Ele ressalta que a eficiência da gestão pública é fundamental para o avanço das cidades. “Não há nenhum lugar do mundo em que haja prosperidade se não houver bons governos. A gente precisa, para uma cidade ser inteligente, ter um aparato estatal, uma competência estatal capaz de pôr à frente projetos que façam as cidades se desenvolverem.”
Tecnologia a serviço das pessoas e da realidade local
O especialista alerta para o risco de copiar modelos de cidades maiores sem considerar as características locais. Ele cita o semiárido como exemplo, onde soluções simples, como sistemas de captação de água da chuva, podem causar impactos mais significativos do que tecnologias sofisticadas. “Às vezes é mais importante uma cisterna numa área rural, numa casa, num local onde seja semiárido, do que a tecnologia.”
André defende o conceito de “tecnologia apropriada”: escolher soluções que façam sentido para a realidade local e que gerem resultados práticos. “O que a gente chama de tecnologia apropriada é você escolher a tecnologia certa para você aplicar no lugar e gerar resultado.” Ele sugere que Feira de Santana se inspire em tecnologias de outras cidades como Curitiba e Recife, mas desenvolva suas próprias soluções: “Quem entende da gente é a gente.”
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Descentralização do desenvolvimento econômico
Outro ponto central é a descentralização do desenvolvimento. André alerta que concentrar oportunidades apenas nas grandes cidades pode ampliar problemas sociais e incentivar a migração de pessoas que não encontram alternativas em municípios menores. “Se você focar só em Salvador, em Feira de Santana, você vai criar um problema, porque quem vai migrar dos municípios para cá vão ser pessoas que vêm porque não têm outra sobrevivência.”
Fortalecer municípios de pequeno e médio porte, criando emprego e renda, é visto por ele como uma medida que também traz segurança e promove o desenvolvimento social. “Quando eu desenvolvo os municípios de forma descentralizada e estimulo a geração de renda e emprego lá, aí sim você está começando a ser inteligente.” Estudos no Nordeste indicam que políticas públicas para manter as pessoas em seus territórios melhoram as condições de vida e reduzem a migração.
Educação e saúde como base para o progresso
André destacou ainda exemplos de municípios pequenos do Nordeste que melhoraram indicadores de educação e saúde mesmo com estruturas econômicas limitadas. Ele mencionou municípios da Paraíba com bons resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), graças a práticas como acompanhamento individualizado, monitoramento constante e reforço escolar direcionado. “Não é nada de outro mundo. É monitoramento de performance, acompanhamento bimestral das crianças. Caiu a nota de matemática, reforço escolar. O reforço não é para todo mundo, é individualizado.”
O especialista reforça que uma cidade não precisa ser rica para oferecer serviços públicos de qualidade. “É possível você ter uma infraestrutura de cuidado funcionando bem, uma cidade que cuida das suas crianças, dos seus jovens e cuida da saúde do povo sem ficar rica.” Ele defende que políticas públicas sejam adaptadas às diferenças entre bairros e regiões dentro dos municípios. “Talvez um dos erros seja esse: a gente está aplicando políticas de educação iguais para o município todo. Está errado. Trate cada bairro como uma cidade, com inteligência, avaliando, monitorando.”
Potencial do Nordeste na economia do conhecimento
Apesar do foco em soluções básicas, André acredita que o Nordeste tem potencial para se destacar em áreas avançadas como inteligência artificial e computação quântica. Ele destaca a importância de criar ecossistemas de inovação locais para gerar empregos e oportunidades, evitando que a tecnologia substitua o trabalho humano. “Você tem que criar o seu ecossistema de inovação de Feira de Santana, da Bahia, do Cimatec. Eu preciso pensar nas pessoas, como empregado, porque senão você vai empregar os robôs e desempregar as pessoas.”
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O especialista cita investimentos em tecnologia previstos para estados do Nordeste e defende que a região assuma protagonismo na chamada economia do conhecimento. “É possível transformar o Nordeste com tecnologia nesse sentido.”
Programação em Feira de Santana
André Agra participará de dois eventos em Feira de Santana nesta quarta-feira (26). Pela manhã, às 9h, conduzirá o workshop “Negócios que Transformam: Caminhos para o Desenvolvimento Socioeconômico”, em parceria com o Instituto Pensar Feira e o Sebrae. À noite, participará de uma palestra na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), dentro do seminário internacional sobre cidades do semiárido, abordando temas como cidades inteligentes, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento territorial.
A secretária executiva do Instituto Pensar Feira, Nathalia Santos Oliveira, explicou que ambos os eventos são gratuitos, mas o workshop da manhã exige inscrição por causa da capacidade limitada do auditório. A palestra à noite é aberta ao público, sem necessidade de inscrição. “Quem tiver interesse pode fazer a inscrição no Instagram do Instituto Pensar Feira para o encontro da manhã. À noite, é só chegar na UEFS.”
Essas iniciativas buscam aproximar poder público, setor empresarial, pesquisadores e sociedade civil para debater estratégias de longo prazo que possam impulsionar o desenvolvimento de Feira de Santana e de municípios do semiárido.
