Clima e natureza moldam o custo do capital e atraem investimentos
Clima e natureza já influenciam diretamente o custo do capital, o acesso a mercados, a eficiência operacional e a decisão sobre onde investir. Ao se aproximar de 2027, o Brasil apresenta uma vantagem comparativa clara, apoiada por regras que começam a precificar esses ativos naturais.
Apesar de ainda serem vistos por alguns como pautas ideológicas ou filantrópicas, clima e natureza têm impacto concreto no balanço financeiro, no custo do capital e na competitividade do país. Isso os coloca firmemente no terreno da política econômica e, consequentemente, da atuação do Estado.
Vantagem comparativa brasileira em números
Em 2025, as fontes renováveis responderam por 86,8% da Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE) brasileira, superando as médias global e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece que a matriz elétrica limpa do Brasil é uma das mais avançadas do mundo, destacando que a transição para uma economia de baixo carbono favorece o crescimento econômico e o investimento de médio prazo.
Esse cenário reduz os riscos para quem produz no país e fortalece o argumento para investidores globais que buscam descarbonizar suas cadeias produtivas. A economia real depende do capital natural, contabilizado ou não, e do clima, tornando esses fatores ativos econômicos que exigem regras estáveis e duradouras. Investidores de longo prazo valorizam a previsibilidade, que só uma política de Estado pode garantir.
Eficiência operacional e localização estratégica
O regime especial para data centers (Redata) é um exemplo prático de como a vantagem comparativa brasileira já é reconhecida e convertida em benefícios fiscais. A matriz elétrica renovável foi destacada na justificativa da medida provisória que instituiu esse regime, que condiciona incentivos ao uso de energia renovável e à eficiência hídrica no resfriamento dos equipamentos.
Esses insumos são essenciais para a produtividade e já funcionam como critérios para acesso a incentivos econômicos. O prospecto do IPO da Anthropic, por exemplo, aponta energia e água como condições para a continuidade do serviço, além de alertar que temperaturas mais altas elevam os custos operacionais, reforçando o valor da energia limpa e da disponibilidade hídrica como fatores decisivos para a localização de investimentos.
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No comércio com a União Europeia, regras como o CBAM e a EUDR exigem transparência e precificam emissões de gases de efeito estufa e desmatamento nas cadeias produtivas. O Passaporte Digital de Produto, que será implementado a partir de fevereiro de 2027, amplia essa lógica ao exigir informações detalhadas sobre produtos como baterias de grande porte.
Dados verificáveis sobre clima e natureza tornam-se moedas de troca nessas regras. A matriz elétrica limpa e a disponibilidade de água são o lastro dessa vantagem comparativa, que, se comprovada por evidências auditáveis, pode ser precificada e valorizada no mercado. Para quem exporta ou atrai investimentos, essa infraestrutura econômica depende de base legal sólida e apoio institucional que transcenda mandatos.
Capital reage à previsibilidade das regras
Quando as regras ficam claras, o capital responde. O Eco Invest Brasil, por exemplo, mobilizou mais de R$ 140 bilhões até seu quarto leilão, sendo cerca de R$ 63 bilhões captados no exterior. O Tesouro Nacional realizou a terceira emissão de título sustentável, no valor de US$ 1,5 bilhão, com recursos destinados a ações de mitigação das mudanças climáticas e conservação de recursos naturais.
O FMI, em sua consulta de 2026 ao Brasil, destaca o Plano de Transformação Ecológica como um dos fatores que podem elevar o crescimento econômico para além da projeção de 2,4% no ano seguinte. Esse reconhecimento deixa claro que a agenda climática é econômica, não ideológica.
No campo dos investimentos estrangeiros em soluções baseadas na natureza, o mercado aguarda a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que deve impulsionar setores como florestas, restauração, agronegócio e tecnologias inovadoras. Segurança jurídica, integridade e rastreabilidade serão essenciais para atrair capital e fortalecer a confiança dos investidores.
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Fonte: daquibahia.com.br
Gestão de riscos e oportunidades já incorporada ao sistema financeiro
A importância econômica de clima e natureza é tamanha que o sistema financeiro brasileiro já estabeleceu regras para gestão de riscos e oportunidades, além da divulgação de informações relevantes. Bancos, seguradoras e fundos de pensão devem avaliar esses riscos e reportá-los, enquanto companhias abertas podem publicar dados financeiros relacionados ao tema, justificando eventuais omissões.
Instituições como o Itaú apontam que crédito e investimento em ações hoje consideram dados sobre riscos e oportunidades ligados ao clima e à natureza. Essa integração evidencia o reconhecimento do tema como parte da dinâmica econômica real.
O papel do Congresso na pauta econômica de clima e natureza
Com a próxima legislatura prestes a começar, cabe ao Congresso reconhecer o valor econômico desses ativos e trabalhar para consolidar uma agenda robusta que beneficie a economia real, o sistema financeiro e a sociedade. A janela entre a eleição e a posse é a oportunidade para definir prioridades alinhadas às necessidades do país.
É essencial que parlamentares e lideranças se familiarizem com os impactos práticos da agenda climática e natural, garantindo políticas públicas que assegurem a transição para uma economia de baixo carbono com estabilidade e previsibilidade.
O engajamento dos cidadãos também tem papel decisivo. Identificar e cobrar dos representantes a defesa dessa pauta é fundamental para que o Brasil construa um futuro econômico sustentável e competitivo.
