Proposta de reestruturação gera controvérsia na UFBA
A proposta de reestruturação da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), conhecida como ‘Nova Politécnica’, provocou um intenso debate interno nesta segunda-feira (13/04/2026). A ideia de desmembrar a escola em três novas unidades acadêmicas, além de criar uma estrutura voltada para a equipe técnica-administrativa, foi recebida com resistência. Com 129 anos de história, a Escola Politécnica é uma das mais tradicionais instituições de engenharia do Brasil, com 180 docentes, 68 servidores técnicos e mais de 3 mil alunos, abrangendo 13 cursos de graduação, oito mestrados, seis doutorados e 40 grupos de pesquisa.
Atualmente, a proposta está sob análise de uma comissão do Conselho Universitário, responsável por aprovar a criação de novas unidades acadêmicas. No entanto, seus defensores citam a aprovação anterior pela Congregação da Escola Politécnica como suporte, embora as votações tenham sido questionadas por não alcançarem a maioria absoluta exigida pelo Regimento da UFBA, o que levantou dúvidas sobre a legitimidade do processo.
Questionamentos sobre a legitimidade do processo
Recentemente, um documento assinado por 17 dirigentes acadêmicos, incluindo chefes de departamentos e representantes estudantis, pediu a suspensão da proposta e solicita uma discussão mais transparente. De acordo com o grupo, as três votações internas que se relacionam ao projeto não atingiram 45% do quórum, o que comprometeria a representatividade das decisões tomadas.
Os críticos da proposta destacam dados que revelam que 92 docentes efetivos se manifestaram publicamente contra o desmembramento, utilizando abaixo-assinados e outras formas de manifestação. As preocupações levantadas incluem impactos na gestão acadêmica, administrativa e financeira da unidade.
O professor Daniel Véras, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia dos Materiais, ressaltou que a proposta contradiz modelos consolidados de organização acadêmica. Ele apontou que instituições como USP, UFRJ, UFMG e UFRGS mantêm suas escolas de engenharia integradas em uma única unidade, reforçando a visão de que a fragmentação proposta seria um passo atípico no cenário nacional.
Críticas e interesses internos em jogo
Além das questões regimentais, parte da comunidade acadêmica vê o projeto como reflexo de interesses internos e disputas institucionais. O professor Luiz Rogério de Andrade Lima argumenta que a proposta poderia resultar na criação de “feudos acadêmicos”, evidenciando as dificuldades de convivência entre diferentes áreas do conhecimento dentro da estrutura atual.
Outro ponto relevante levantado pelos opositores refere-se à gestão da unidade nos últimos anos. Críticos mencionam problemas estruturais persistentes, como um anexo que foi iniciado há cerca de uma década e ainda não foi concluído, além de deficiências notórias no prédio principal, que apresenta relatos de problemas estruturais significativos.
O professor Lafayette Luz alerta que a divisão da escola ocorre em um contexto de fragilidade institucional e pode comprometer o patrimônio histórico e acadêmico da Politécnica. Ele enfatiza que a escola, fundada em 1897 no Pelourinho, é um dos principais centros de formação de engenheiros na Bahia e em todo o Brasil.
Próximos passos no Conselho Universitário
O projeto agora aguarda análise no Conselho Universitário, que avaliará sua legalidade, viabilidade administrativa e impacto acadêmico. O sentimento entre os opositores é de que as inconsistências apontadas, juntamente com a forte resistência da comunidade acadêmica, resultarão na rejeição ou devolução da proposta para rediscussão.
Ainda não há um prazo definido para a conclusão desse processo, e a expectativa é de que o debate se intensifique à medida que docentes, estudantes e técnicos administrativos continuem mobilizados.
Conflito entre tradição e mudança administrativa
A polêmica em torno da “Nova Politécnica” ilustra um confronto entre modelos institucionais estabelecidos e novas propostas de reestruturação. De um lado, defensores da tradição acadêmica e da integração das engenharias sob uma única estrutura — um modelo amplamente adotado em universidades de renome no Brasil. Por outro lado, a proposta de fragmentação sugere uma tentativa de reorganização administrativa que ainda carece de consenso e legitimidade.
Esse processo também evidencia fragilidades na governança universitária, especialmente no que tange à tomada de decisões estruturais sem a participação ampla da comunidade acadêmica. As contestações sobre o quórum das votações e a falta de transparência nas discussões indicam uma possível ruptura entre a gestão e a base institucional.
