Modelos de Crédito em Xeque no Varejo de Bens Duráveis
A recuperação judicial da Casas Bahia, oficializada no último domingo, não apenas revelou a fragilidade da varejista, mas reacendeu o debate sobre um modelo amplamente adotado no setor: a dependência do crédito, tanto para o consumidor quanto para a empresa manter suas operações. Essa dinâmica se torna especialmente crítica em redes que comercializam bens duráveis, onde o valor médio das compras é elevado e os consumidores são mais sensíveis às variações das taxas de juros.
No mesmo período, a Marabraz também recorreu à proteção judicial contra credores, enfrentando dívidas próximas de R$ 140 milhões, enquanto a Casas Bahia lida com R$ 17,3 bilhões na recuperação. Embora as duas empresas tenham trajetórias distintas, ambas ilustram a pressão exercida por crédito caro, queda no consumo e a constante necessidade de capital para seguir funcionando.
Crédito Mais Caro e Inadimplência Elevada Agravam Cenário
Renato Franklin, presidente da Casas Bahia, sintetizou essa realidade ao afirmar que “não existe acesso a crédito para a população que quer consumir”. Juros elevados e o aumento da inadimplência tornam o financiamento do consumidor mais arriscado para o varejista. Embora o crédito sustente as vendas, ele pode corroer a rentabilidade quando o custo para captar recursos cresce ou quando a inadimplência aumenta.
O problema se aprofunda quando o ambiente de risco afeta fornecedores, bancos e demais financiadores. No pedido de recuperação judicial, a Casas Bahia revelou que transportadoras passaram a recusar entregas por causa de atrasos nos pagamentos. A Marabraz vem enfrentando dificuldades similares para receber mercadorias de seus fornecedores.
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Para Olívia Flôres, presidente da Magno Investimentos, esse é o momento em que a crise ultrapassa as finanças: “Quando o fornecedor começa a questionar o balanço mais do que o pedido, a crise já saiu da diretoria financeira e chegou à prateleira”.
Consumidor Mais Exigente e Alternativas Digitais Aumentam a Pressão
O cenário se complica ainda mais diante das opções digitais que ampliaram a comparação de preços, produtos e condições de pagamento. Enquanto isso, as redes tradicionais carregam o peso de lojas físicas, custos com mão de obra, logística e crédito. Essa sobrecarga impacta principalmente consumidores de renda mais baixa, público chave para o segmento de móveis e eletrodomésticos, que tendem a adiar compras importantes diante do orçamento apertado.
Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência, aponta uma desconexão preocupante: “Apesar dos dados do IBGE mostrarem melhora no emprego e renda, o dinheiro não chega às lojas”. Setores como móveis, material de construção e eletroeletrônicos registram desempenho fraco recentemente.
Disputa de Mercado e Oportunidade para Concorrentes
Nem todas as empresas enfrentam o mesmo impacto. Negócios com menor dependência de financiamento, marcas consolidadas ou atuação em nichos específicos podem atravessar esse período com mais resiliência. O Magazine Luiza surge como um potencial beneficiário dessa mudança. Levantamento do BTG Pactual mostra que mais de 90% das lojas que a Casas Bahia pretende fechar estão próximas a unidades do Magalu, que disputam clientes em categorias semelhantes, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis.
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O fortalecimento do canal físico no Magalu reforça essa tendência. Em 2025, as vendas nas lojas cresceram 5,9%, enquanto o e-commerce recuou 3,9%. O primeiro trimestre deste ano acentuou essa diferença, com avanço de 6,9% no físico e queda de 11% no online.
O mercado de varejo especializado em eletrodomésticos e eletrônicos movimentou R$ 75,1 bilhões em 2025, um crescimento de 5% em relação ao ano anterior. Apesar do avanço do comércio eletrônico, a Euromonitor destaca que as redes tradicionais ainda lideram as vendas, apoiadas na presença física, oferta de crédito e possibilidade de demonstrar produtos.
Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, observa que a expansão das plataformas digitais nem sempre mira retorno imediato, mas busca participação de mercado e escala. A Casas Bahia, ao reduzir sua presença física construída ao longo de décadas, abre espaço para que essa fatia importante do consumo de bens duráveis volte à disputa, com consequências diretas para o mercado nacional.
