Polêmica sobre o nome do Elevador Lacerda
Waldeck Ornélas, especialista em planejamento urbano-regional e autor de “Cidades e Municípios: gestão e planejamento”, destaca a recente mobilização para alterar o nome do Elevador Lacerda, um dos principais símbolos de Salvador. A iniciativa segue uma tendência de atribuição de naming rights ideológicos, prática associada à cultura woke, que apesar de estar em declínio, ainda ganha força na capital baiana.
A contagem regressiva começou com a modificação dos nomes tradicionais da Praça Cairu, na Cidade Baixa, e da Ladeira da Praça, na Cidade Alta, ambas no Centro Histórico, aprovadas pela Câmara de Vereadores e sancionadas pelo prefeito. Agora, o foco recai sobre o Elevador Lacerda, cuja denominação homenageia o engenheiro Antonio de Lacerda, responsável por sua implantação e operação.
Investigação e controvérsias
O Ministério Público Estadual (MPE) prepara uma investigação para apurar possíveis vínculos de Antonio de Lacerda com a escravidão, ainda que tal apuração pareça desnecessária diante do contexto histórico, onde grandes proprietários frequentemente tinham relação com o sistema escravista. Essa investigação, segundo Ornélas, consome tempo e recursos que poderiam ser destinados a questões mais urgentes, como o combate ao crime organizado.
Se confirmadas essas relações, o famoso Elevador Lacerda poderá ter seu nome substituído por outro sugerido pelos defensores da mudança, alinhado a um naming rights ideológico. A expectativa é que essa decisão desencadeie uma série de alterações que podem atingir até mesmo o nome da própria cidade.
Futuro da identidade de Salvador
Salvador, oficialmente Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, foi fundada em 1549 com a chegada de Tomé de Souza. Ornélas aponta que não há registros de nomes indígenas anteriores para a região, o que complica a substituição do nome por uma alternativa originária da cultura local. Mesmo assim, movimentos identitaristas pressionam pela alteração, alegando razões diversas para justificar a mudança e a reescrita da história local.
Essa alteração implicaria um trabalho intenso de marketing para reposicionar a cidade no cenário global, apresentando-a com uma nova identidade que, apesar de manter os atrativos culturais, históricos e turísticos, teria um “naming rights” ideológico como marca principal. A proposta poderia transformar Salvador numa espécie de “cidade perdida”, apagando sua trajetória histórica.
Impactos e resistências
O especialista ressalta que essa tendência de apagar ou reescrever a história para atender a interesses identitaristas provoca divisões sociais, colocando grupos uns contra os outros. Essa movimentação tem recebido aval silencioso de autoridades, acadêmicos, imprensa e entidades civis, que deveriam proteger a cultura nacional e a memória social do país.
Salvador, a primeira capital do Brasil, enfrenta uma situação singular, onde a mudança de nomes de logradouros públicos acontece com frequência, como se isso pudesse alterar a essência da cidade. Ornélas conclui que há uma inquietante deterioração cultural nesse processo, comparando o cenário à célebre expressão “há algo de podre no Reino da Dinamarca”, sugerindo uma crise na preservação da identidade local.
