Proposta dos EUA inclui exigência para eleições livres e participação política no Brasil
Em outubro de 2025, durante negociações sigilosas entre Brasil e Estados Unidos, o governo Donald Trump apresentou uma proposta que exigia do Brasil o compromisso de realizar eleições presidenciais “livres e justas” em 2026. Além disso, o documento solicitado pedia que o país não impedisse “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral.
A revelação foi feita pelo jornal Estado de São Paulo, que teve acesso à lista de 21 demandas enviadas pelos representantes norte-americanos aos brasileiros no contexto da crise comercial iniciada após a imposição de uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada por Trump em julho daquele ano.
Contexto político e reação brasileira à proposta
Embora o documento não mencionasse o ex-presidente Jair Bolsonaro de forma nominal, autoridades brasileiras interpretaram a exigência como uma referência direta à situação jurídica e política do ex-chefe do Executivo. Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão por sua participação em uma trama golpista e está inelegível até 2030, conforme decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023.
O teor da proposta foi considerado “inaceitável” por membros da diplomacia brasileira. O então ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, instruiu sua equipe a informar que o documento não deveria servir como base para as negociações e pediu que a lista de demandas não fosse discutida nas reuniões formais do dia.
Demais exigências e implicações institucionais
Além do ponto sobre as eleições, o governo Trump apresentou exigências relacionadas à liberdade de expressão. O documento pedia que o Brasil se comprometesse a não punir cidadãos, residentes ou empresas americanas por condutas protegidas pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, incluindo a proibição de multas extraterritoriais e congelamento de ativos.
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Outra demanda dizia respeito à atuação de prestadores de serviços digitais dos EUA, com a solicitação de garantias para notificação adequada e possibilidade de recurso contra penalidades relacionadas a publicações em redes sociais. A proposta também mencionava a necessidade de regras claras para remoção de conteúdo e responsabilização civil.
Sanções financeiras e tensões diplomáticas
O documento ainda tratou das sanções financeiras aplicadas pelos Estados Unidos, pedindo que o Brasil não penalizasse instituições financeiras brasileiras que cumprissem essas sanções. Naquela época, havia preocupação no setor bancário com as restrições ligadas à Lei Magnitsky, direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, à advogada Viviane Barci de Moraes e ao Instituto Lex.
As sanções foram justificadas pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que acusou Moraes de liderar uma “campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias e processos politizados, inclusive contra Jair Bolsonaro”. Autoridades norte-americanas, como Marco Rubio e Christopher Landau, também apontaram violações de direitos humanos por parte do magistrado.
Tensão comercial e política entre Brasil e Estados Unidos
A relação entre os dois países vinha se deteriorando diante de medidas como tarifas, sanções a autoridades, cassação de vistos diplomáticos e críticas às decisões do STF sobre redes sociais. Em julho de 2026, o governo brasileiro rejeitou a prorrogação de uma emergência nacional dos EUA relacionada ao Brasil, classificando a medida como baseada em acusações “sem respaldo nos fatos”.
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No auge da crise, Trump associou o tarifaço à condenação de Bolsonaro e a decisões do Supremo Tribunal Federal. Em carta pública enviada ao presidente Lula em 9 de julho de 2025, Trump definiu o processo contra Bolsonaro como uma “vergonha internacional” e comparou o caso a uma “caça às bruxas” que deveria ser encerrada imediatamente.
Desdobramentos e negociações comerciais
Apesar da contundência do documento, o relato oficial das reuniões de outubro de 2025 foi mais moderado. Após os encontros em Washington, Mauro Vieira destacou o caráter “construtivo” das conversas e qualificou o momento como o “princípio auspicioso de um processo negociador”. O comunicado conjunto mencionou apenas “diálogos muito positivos sobre comércio e questões bilaterais em andamento”.
De acordo com o Estado de São Paulo, a contraproposta brasileira enviada em novembro desconsiderou as exigências políticas dos Estados Unidos, mas manteve as negociações comerciais, com previsão de nova rodada de conversas durante a reunião do G-20.
O Itamaraty não se pronunciou oficialmente sobre o conteúdo da proposta, assim como o Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos EUA não responderam aos pedidos de manifestação da imprensa.
