O Prejuízo Silencioso dos Polinizadores
No Cerrado brasileiro, onde as lavouras de soja se espalham, um silêncio preocupante se instala. Esse silêncio não é apenas a falta de sons, mas a ausência do característico zumbido das abelhas. Esses polinizadores, que desempenham um papel vital na fertilização de plantas, vêm desaparecendo aos poucos, sem que haja ostensivas manifestações de seu colapso. Essa realidade se torna ainda mais alarmante ao olharmos para os dados do agronegócio: em 2024, o Brasil aprovou mais de 600 novos agrotóxicos, o que representa um aumento de 19% em relação ao ano anterior, segundo informações do Ministério da Agricultura. O que isso significa para a biodiversidade e a segurança alimentar?
Um estudo, publicado em abril de 2026 na revista Neotropical Entomology, realizado por pesquisadores de várias instituições de renome, revela que o Brasil possui um vasto acúmulo de conhecimento científico sobre polinizadores, mas falha em implementar políticas públicas eficazes. O desafio não é a falta de ciência, mas sim a ausência de uma governança que integre esses conhecimentos às ações necessárias.
Polinizadores: A Base da Produção Agrícola
Os dados são alarmantes: polinizadores como abelhas, borboletas e morcegos são responsáveis pela reprodução de mais de 95% das plantas cultivadas e silvestres do planeta. No Brasil, entre 16% e 25% da produção agrícola depende diretamente desses serviços ecológicos, conforme apontado pelo IBGE. A nível global, cerca de 17% do valor da produção agrícola está ligado à polinização animal, o que representa 28% do comércio agrícola internacional. Um modelo econométrico recente estima que, se houver um colapso dos polinizadores, os preços para os cultivos dependentes podem aumentar em até 30%, gerando uma perda significativa de bem-estar econômico.
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O Brasil se destaca nesse cenário por ser o maior país tropical com uma das maiores diversidades de abelhas nativas do mundo. Contudo, o paradoxo é gritante: enquanto o país tem mais de 600 espécies de abelhas sem ferrão, em 2021 utilizou cerca de 719,5 mil toneladas de pesticidas em suas lavouras, um volume que se equipara ao consumo combinado de Estados Unidos e China. A intensidade do uso de agrotóxicos, com 10,9 quilos por hectare, é alarmante quando comparada aos 2,85 kg/ha dos EUA e 1,9 kg/ha da China.
Consequências dos Agrotóxicos para as Abelhas
Os efeitos dos agrotóxicos sobre as abelhas não se limitam à mortalidade imediata. As abelhas nativas sem ferrão, particularmente vulneráveis, sofrem danos subletais que afetam seu tamanho, desenvolvimento e capacidade de polinização. Apesar de sobreviverem, sua eficácia em realizar funções essenciais para a colônia é severamente comprometida. Esses danos, embora não sejam detectados nos modelos de segurança, manifestam-se em um declínio gradual da população do inseto.
A perda de habitat, impulsionada pelo uso intensivo de fertilizantes e pelo desmatamento, também é uma causa significativa do declínio dos polinizadores. A fragmentação das florestas não só reduz o espaço disponível para as espécies, mas também isola populações e diminui a diversidade genética, tornando-as mais suscetíveis a alterações climáticas extremas.
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Fonte: bahnoticias.com.br
A Necessidade de Políticas Públicas Eficientes
O estudo da Neotropical Entomology também analisa a trajetória das políticas brasileiras voltadas para a conservação dos polinizadores. Desde a criação da Iniciativa Brasileira de Polinizadores, em 2000, até o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores, o país tem tentado abordar a questão, contudo, as iniciativas seguem de forma paralela, sem uma integração efetiva e sem a legislação necessária que assegure a proteção dos polinizadores.
Jeferson Coutinho, um dos pesquisadores do estudo, ressalta que a criação de políticas públicas é essencial para a preservação dos polinizadores e para garantir a continuidade dos serviços de polinização, que são indispensáveis para a produtividade agrícola. Medidas como a eliminação gradual de subsídios a agrotóxicos mais nocivos e a implementação de programas de monitoramento das populações de polinizadores são recomendações cruciais.
A Fragilidade do Ecossistema e o Futuro da Agricultura
Com mais de 87% das espécies de plantas com flores dependendo de polinizadores para a produção de sementes, a relação entre polinizadores e a agricultura é inegável. No Brasil, cerca de 60% das 141 espécies cultivadas para alimentação animal e biocombustíveis são diretamente dependentes da polinização animal. Essa conexão entre um beija-flor no Cerrado e a mesa de um consumidor em São Paulo é complexa e delicada.
O estudo também destaca a lacuna de dados que prejudica tanto a pesquisa quanto a elaboração de políticas. A falta de informações precisas sobre a distribuição e ecologia das espécies polinizadoras é alarmante, especialmente nas regiões tropicais que devem ser profundamente afetadas pelas mudanças climáticas. A ausência de um marco legal eficaz para a proteção dos polinizadores no Brasil é uma questão crítica, que precisa ser abordada com urgência.
Em contrapartida, a Europa já estabeleceu regulamentos que oferecem proteção aos polinizadores, enquanto o Brasil continua a aprovar novos agrotóxicos. O que os pesquisadores documentam não é apenas um risco futuro, mas uma erosão ambiental que já está em curso. As flores ainda estão abertas, mas as visitas de polinizadores estão se tornando cada vez mais raras.
