O grito da ancestralidade na Concha Acústica
O público que lotou a Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, entoou uníssono o nome de Lazzo Matumbi, uma das vozes mais marcantes da Bahia. No palco, o cantor e compositor, conhecido como “a voz da Bahia”, emocionou-se ao dizer: “Sempre sonhei com isso aqui.” A apresentação marcou um momento especial em seus 45 anos de carreira, sendo também o registro audiovisual inédito do artista, gravado no mês anterior.
Uma trajetória de resistência e valorização cultural
Com direção artística do compositor Manno Góes e musical do maestro Ubiratan Marques, o audiovisual “Matumbi canta a Bahia” ilumina a história de um artista que valorizou a ancestralidade e difundiu ritmos como samba-reggae, ijexá e reggae. Entre seus sucessos estão canções eternizadas na voz de outros artistas, como “Alegria da cidade”, interpretada por Margareth Menezes, além de “Me abraça e me beija” e “14 de maio”.
O show trouxe à tona a riqueza rítmica que Lazzo incorpora com seu timbre único e presença marcante, celebrando tanto artistas consagrados como Dorival Caymmi e Novos Baianos quanto nomes da nova geração, a exemplo de BaianaSystem, Rachel Reis, BNegão e Ravi Lobo, que participaram do audiovisual, com estreia prevista para novembro no YouTube do artista e do selo Mapa/ADA da Warner, além de futura exibição na TVE.
Reconhecimento tardio, mas merecido
Com 69 anos, Lazzo Matumbi vive um momento de projeção inédita em sua longa trajetória. Reverenciado por artistas da nova geração, ele é convidado para participações em discos e shows pelo Brasil, recebendo o reconhecimento que parecia tardar. Para Roberto Barreto, guitarrista do BaianaSystem, Lazzo é uma força vital na música baiana, conectando a cultura local com a música negra jamaicana e norte-americana.
Leia também: Salvador celebra a cultura afro-brasileira com três dias de capoeira, samba e oficinas no MAM
Leia também: Afroturismo na Bahia: Capacitação em Salvador valoriza história e cultura afro
Rachel Reis destaca o magnetismo e a musicalidade singulares do cantor, que para Manno Góes representa também uma referência humana, coerente em seu compromisso com a cultura afro-indígena e resistência. Seu discurso e sua arte, nascidos de uma trajetória de luta, tornam-no um artista fundamental para o entendimento das raízes brasileiras.
Reflexões sobre racismo e ancestralidade
Durante o espetáculo, Lazzo Matumbi compartilhou relatos pessoais de sua jornada, marcada pelo preconceito e resistência. Lembrando a infância nas rodas de samba com sua mãe, dona Minervina, ele destacou a exclusão enfrentada por músicos negros, que muitas vezes eram relegados a espaços secundários e mal recebidos nas rádios.
Uma das canções mais emblemáticas interpretadas no show foi “14 de maio”, composta por Jorge Portugal. A música critica a abolição da escravidão no Brasil, expondo as dificuldades enfrentadas pelos recém-libertos após a assinatura da Lei Áurea. Para Lazzo, temas como justiça social e igualdade ainda precisam ser discutidos com urgência para que o país avance.
Carnaval, cultura e crítica social
Lazzo também destacou a contradição do carnaval baiano, onde os “cordeiros”, responsáveis pela segurança dos poderosos, recebem condições precárias. Ele critica como o Axé Music fortaleceu comunidades brancas enquanto artistas negros permanecem no ostracismo, apontando para a necessidade de valorização real da cultura afro-indígena, que é pilar fundamental da identidade brasileira.
Leia também: A Nobreza do Amor Brilha na Rio Fashion Week: Celebrando a Cultura Afro-Brasileira
Leia também: Cultura Indígena em Destaque: Aldeia Caririxoco Leva Educação e Arte a Feira de Santana
Em sua fala contundente, o artista conclama o Brasil a reconhecer suas raízes: “Brasileiro tem mania de se achar eurocêntrico. Esquece que os dois pilares de sustentação desse país são afrodescendente e indígena. Alô, Brasil, se olha no espelho!”
Resistência e legado
O posicionamento político de Lazzo, nem sempre bem recebido, lhe rendeu boicotes. O cantor relembra os desafios enfrentados, inclusive no meio artístico, e destaca a parceria com seu produtor branco Arthur Dazzani, que conseguiu abrir espaços inacessíveis para ele devido ao racismo estrutural.
Apesar das dificuldades financeiras, Lazzo mantém firme sua autoestima e paixão pela música. Para ele, o maior reconhecimento está na conexão emocional com o público, especialmente os jovens que o veem como exemplo de resistência e persistência.
“Se tem um objetivo, um sonho, não desista, vai pra cima. Tenho muito orgulho do que sou. Todo dia me olho no espelho e falo: ‘Me amo, viu, velho! Você é foda!’ Se não for isso, tô lanhado!”, afirma o artista, que segue inspirando gerações e fortalecendo o diálogo sobre cultura, ancestralidade e identidade no Brasil.
