Mestres de Capoeira em Debate sobre Justiça Climática
Na última terça-feira (03), a 1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira reuniu mestres e mestras de diversas regiões do Brasil em um encontro on-line que durou três horas. O evento, transmitido pelo canal do Pontão de Cultura Ubuntu – Valorizando Trajetórias, Preservando Memórias no YouTube, teve como principal objetivo a preparação para a 6ª Teia Nacional, que ocorrerá em Aracruz, Espírito Santo. Durante o encontro, os participantes discutiram temas cruciais como justiça climática e a luta contra o racismo ambiental, evidenciando a atuação significativa dos pontos de cultura ligados à capoeira em todo o país.
O anfitrião Luís Cláudio de Oliveira, coordenador-geral do Pontão, mediou os debates que contaram com a presença de representantes do Ministério da Cultura (MinC), como João Pontes, diretor da Política Nacional Cultura Viva, e Tião Soares, diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares.
Capoeira e Políticas Públicas: Um Olhar Crítico
Os debates também trouxeram à tona a experiência do sociólogo Luiz Renato Vieira, mestre do Grupo Beribazu, de Brasília, que tem estudado a relação entre capoeira e políticas públicas desde a década de 1980. Com um olhar crítico, ele ressaltou: “Estamos vivendo um ciclo democrático que prioriza a participação popular na construção de políticas públicas. Essa mobilização é essencial para consolidarmos o que já foi conquistado anteriormente”.
Tião Soares, por sua vez, expressou sua satisfação com a retomada do Grupo de Trabalho (GT) da Capoeira na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC). Ele enfatizou a importância dessa iniciativa na reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). Ao celebrar a mobilização coletiva, Soares afirmou que este é apenas o início de um longo processo em busca do reconhecimento da capoeira como uma prática cultural viva dentro das políticas públicas e educacionais do Brasil. “A capoeira é muito mais do que uma prática corporal; é um verdadeiro patrimônio cultural que inclui memória, resistência e ensino de cidadania”, completou.
Capoeira na Política Nacional Cultura Viva
João Pontes também se comprometeu em destacar o papel vital da capoeira dentro da Política Nacional Cultura Viva. Ele lembrou que, em 2003, no início do primeiro governo Lula, a capoeira começou a receber atenção necessária através de editais voltados para a valorização das culturas tradicionais. “Hoje, a capoeira é um dos grupos culturais mais expressivos do Brasil, e sua presença se faz sentir em todos os cantos do país, bem como internacionalmente”, afirmou.
Durante o encontro, Pontes também mencionou que a Política Nacional Cultura Viva está em seu melhor momento, com ações que abrangem mais de mil municípios e que se intensificaram com a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
Fortalecendo Redes e Acessibilidade Cultural
Outra voz importante na discussão foi a de Dilma Negreiros, presidente do Pontão de Cultura CIEMH2 Núcleo Cultural e membro da Comissão Nacional de Pontos de Cultura. Negreiros destacou a necessidade de garantir acessibilidade cultural e a valorização de mestres que, embora não necessariamente tenham formação acadêmica, trazem um vasto conhecimento prático que precisa ser repassado às novas gerações.
Ela enfatizou a importância do trabalho em rede, afirmando que, mesmo durante a pandemia, os pontões culturais conseguiram se sustentar e resistir. “É fundamental que nossas vozes sejam ouvidas nos espaços de debate sobre políticas públicas para que possamos assegurar que nossas vivências e histórias sejam consideradas”, disse.
Racismo Ambiental e Capoeira
A professora Silvany Euclênio, coordenadora do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, trouxe à tona a questão do racismo ambiental, que permeia os debates da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura. Ela explicou que essa expressão, que surgiu nos anos 1980, refere-se à injustiça e à desigualdade enfrentadas por comunidades negras em relação a questões ambientais.
“No Brasil, observamos como os territórios quilombolas e indígenas são os mais afetados por atividades destrutivas, como mineração e desmatamento”, alertou. Silvany destacou a capoeira como um espaço inclusivo que promove a união de pessoas de diferentes origens, reforçando seu papel como ferramenta de resistência e educação.
O evento, sem dúvida, representou um passo significativo na valorização da capoeira e na luta por suas políticas públicas, unindo vozes e experiências em prol de um futuro mais justo e respeitoso com a cultura brasileira.
