Visita do deputado Diego Castro à UFBA e seus desdobramentos
O deputado Diego Castro (PL) esteve recentemente na Universidade Federal da Bahia (UFBA) após denúncias sobre a colagem de adesivos políticos no prédio da Faculdade de Comunicação (Facom). A ação gerou tumulto entre estudantes e exemplifica um fenômeno crescente na política brasileira: a transformação de espaços tradicionais em palcos para vídeos e confrontos nas redes sociais.
Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político, professor associado da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH), avaliou à reportagem do BNEWS que esse contexto evidencia a substituição do debate por monólogos, alimentando uma polarização que compromete o ambiente universitário.
Pluralidade universitária e a pressão política
Dantas Neto defende que a UFBA deve manter sua pluralidade e não se tornar um “bunker” protegido contra a política. Ele reconhece a legitimidade da circulação de ideias na instituição, mas ressalta que isso não justifica comportamentos que gerem tumulto, intimidação ou agressão.
Segundo o professor, a democracia sofre quando é chamada a resolver conflitos que se configuram como “brigas de turma”. Ele destaca que o ambiente político perdeu pluralidade e que a atual disputa de narrativas impõe pressões à conduta democrática, mesmo que as instituições resistam.
O impacto da guerra de narrativas na democracia
“A disputa é sobre quem é o dono da verdade”, afirma Dantas Neto, que observa o avanço do messianismo, antes restrito a grupos específicos, e agora mais difundido. Isso amplia as chances de intolerância e dificulta a atuação de propostas realistas no cenário eleitoral, que enfrentam resistência diante do ambiente polarizado.
Ele avalia que, embora as instituições democráticas estejam menos ameaçadas do que em 2022, a conduta democrática está fragilizada. O professor alerta para um cenário em que os vencedores das eleições não terão o benefício da dúvida, abrindo espaço para uma lógica de “faxina” política.
Redes sociais, conflito e a lógica do engajamento
Sobre o papel das redes sociais na amplificação do conflito político, Dantas Neto afirma que não há uma resposta definitiva sobre a responsabilidade dos algoritmos nesse processo. Ele questiona a ideia de que o engajamento extremo nas redes seja majoritário, sugerindo que a indiferença pode ser mais comum do que se imagina.
Na avaliação do especialista, o atual cenário eleitoral dificilmente terá campanhas centradas exclusivamente em propostas para melhorar a vida das pessoas. O conflito e o espetáculo digital tendem a marcar a disputa, enquanto as propostas mais realistas permanecem em segundo plano devido à complexidade e à dificuldade de aceitação pelo eleitorado.
Universidade pública e o desafio da política
Dantas Neto reforça que a universidade pública, como a UFBA, é um espaço público, não uma agência governamental ou propriedade exclusiva da comunidade interna. Ele lembra que, mesmo em períodos ditatoriais, a presença da política na universidade foi contestada, mas as conquistas democráticas deslegitimaram essa visão.
Para o professor, a universidade deve ser plural, não um refúgio protegido da política. Ela não deve estar a serviço de uma única corrente política, mas também não pode rejeitar o debate político. Assim, a presença de candidatos ou parlamentares defendendo posições é legítima, desde que respeite a pluralidade e o ambiente pacífico.
Por outro lado, ações que provoquem tumulto, intimidação ou agressão não encontram respaldo. Em ambientes plurais, esses episódios são isolados e as autoridades universitárias têm o dever de agir para preservar a normalidade. Segundo Dantas Neto, a postura adequada combina firmeza e comedimento para evitar transformar o espaço em um palco de guerra cultural, especialmente em contextos eleitorais.
Próximos passos e desdobramentos políticos
O cenário político que envolve a UFBA reflete desafios maiores para a democracia e para a convivência institucional. A polarização e a disputa por narrativas impactam diretamente o ambiente acadêmico, exigindo respostas firmes das autoridades e da sociedade.
O próximo movimento político dependerá da capacidade das instituições de manter a pluralidade e a normalidade, garantindo que a universidade continue como espaço de liberdade de pensamento e debate sem ser palco de conflitos exacerbados.
Henrique Azevedo
