Uma nova visão sobre a circulação oceânica do Atlântico
Um estudo recente publicado na revista “Nature Geoscience” apresenta dados que questionam uma explicação que, por décadas, serviu para entender o funcionamento da circulação oceânica que influencia o clima mundial. A pesquisa, conduzida por cientistas dos Países Baixos, Estados Unidos, China e Reino Unido, voltou o olhar para a AMOC (Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico), um sistema que atua como uma enorme esteira transportadora de águas quentes e frias, regulando o clima em várias regiões globais, incluindo o Atlântico Norte e a Europa.
O papel da “fuga das Agulhas” sob nova análise
Durante muito tempo, a corrente conhecida como “fuga das Agulhas”, situada ao sul da África, foi considerada fundamental para a manutenção da AMOC. Essa corrente transporta água quente e salgada do Oceano Índico para o Atlântico, e acreditava-se que o sal dessa água ajudava a aumentar a densidade da água no Atlântico Norte, facilitando seu afundamento e, consequentemente, alimentando a circulação profunda da AMOC.
Contudo, o novo estudo revelou um cenário diferente ao analisar o passado remoto do planeta. Mesmo com uma redução drástica na entrada da água salgada do Índico, a formação de águas profundas no Atlântico Norte intensificou-se, e parte da circulação oceânica tornou-se mais forte. “A AMOC pode permanecer forte mesmo quando a fuga das Agulhas enfraquece”, afirma Suning Hou, líder da pesquisa.
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Investigando o passado para entender o presente
Os pesquisadores focaram em um período entre 3,6 e 2,6 milhões de anos atrás, durante o final do Plioceno, que inclui uma fase glacial e outra com temperaturas mais elevadas que as atuais. Para reconstruir as condições do oceano naquela época, foram analisadas amostras de sedimentos do Planalto das Agulhas, a cerca de 500 km ao sul da África do Sul. Essas camadas sedimentares funcionam como um arquivo natural, contendo fósseis microscópicos e compostos orgânicos que indicam as temperaturas e características das águas do passado.
Com base nesses dados, foi possível identificar o deslocamento de uma faixa que separa águas subtropicais das regiões frias do Oceano Austral. Essa faixa, quando se move para o sul, amplia a passagem da água do Índico para o Atlântico; quando avança para o norte, a passagem se estreita. Por volta de 3,4 milhões de anos atrás, essa faixa avançou para o norte, o que resultou no esfriamento da região das Agulhas em cerca de 3°C e na redução da entrada de água quente e salgada no Atlântico.
Surpresas na circulação oceânica
Esse cenário contraria a explicação tradicional, que previa o enfraquecimento da AMOC com a redução da entrada de água salgada. Na prática, os registros geológicos e simulações climáticas indicam o contrário: apesar da corrente quente percorrer distâncias menores no período glacial, a formação de águas profundas no Atlântico Norte aumentou, e a circulação intensificou-se em latitudes mais baixas.
Para confirmar que não se tratava de uma mudança isolada, a equipe comparou amostras do sul da África com registros do Golfo do México, Caribe e outras regiões do Atlântico. O resultado mostrou uma reorganização ampla das camadas de água no oceano, desafiando a ideia de que a “fuga das Agulhas” controla diretamente a intensidade da AMOC apenas pelo transporte de sal.
Implicações para o clima atual e futuro
Segundo os pesquisadores, a circulação oceânica depende também de processos locais no Atlântico Norte, onde a água perde calor, torna-se mais densa e afunda. A importância desses mecanismos pode variar conforme o clima, a distribuição de gelo e a configuração dos oceanos. Apesar de o estudo não indicar mudanças diretas para a AMOC atual, ressalta que o passado do planeta mostra que as conexões entre as grandes correntes oceânicas podem mudar.
A atual situação, com o derretimento no Ártico e Groenlândia, que injeta água doce no oceano, e possíveis alterações nas correntes do Oceano Austral, pode provocar efeitos diferentes daqueles observados no passado distante. A principal mensagem da pesquisa é que a dinâmica das correntes oceânicas é complexa e não pode ser entendida apenas por um único fator.
