Comitiva do Reino de Oyó marca agenda cultural e acadêmica na Bahia
Na última quarta-feira, 1º de julho de 2026, Salvador recebeu a comitiva oficial do Reino de Oyó, liderada pelo Alaafin de Oyó, Sua Majestade Imperial Ọba Akeem Abimbola Owoade I, durante uma visita que reforça a cooperação entre Brasil e Nigéria em torno da preservação do patrimônio iorubá. O encontro ocorreu na Casa de Oxumarê, um dos terreiros mais tradicionais do candomblé baiano, e fez parte da programação da 4ª Conferência Internacional LASUCAS 2026, sediada na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Este movimento de aproximação envolve terreiros matrizes, universidades, autoridades tradicionais e instituições culturais que atuam na salvaguarda da memória histórica, religiosa e civilizatória de Oyó, antiga capital do Império Iorubá. A visita do Alaafin destaca a importância da cultura iorubá para a história e identidade de territórios brasileiros como a Bahia, onde a influência africana é marcante.
Participação na conferência amplia diálogo acadêmico e diplomático
O Alaafin de Oyó e sua comitiva estiveram presentes desde o dia 29 de junho na abertura da 4ª Conferência Internacional LASUCAS – Cooperação Sul-Sul: Os Papéis da Nigéria e do Brasil na Promoção da Colaboração entre Economias Emergentes. O evento, realizado no Salão Nobre da Reitoria da UFBA, contou com atividades que se estenderam até 1º de julho, envolvendo também a Faculdade de Arquitetura da UFBA e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
A comitiva permanece na Bahia até o dia 4 de julho, participando de compromissos que abrangem diálogos acadêmicos, diplomáticos, religiosos e culturais. Além de representantes do Reino de Oyó, a agenda conta com membros da Associação dos Agudás, retornados brasileiros na África, grupos da cidade de Oxubô e instituições que promovem cooperação entre universidades brasileiras e nigerianas.
Lançamento do livro “Oyó: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá”
Durante a conferência, foi lançado o livro “Oyó: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá”, fruto da colaboração técnico-científica entre a UFBA, o Palácio Real de Oyó, a Universidade Ajayi Crowther e a Universidade de Lagos. A obra registra festivais, estruturas políticas, tradições, práticas culturais e formas de organização social da cidade, traçando conexões entre a história nigeriana e a formação cultural brasileira, especialmente na Bahia.
Casa de Oxumarê simboliza a ligação entre Bahia e Oyó
Um dos momentos mais simbólicos da visita foi a recepção da comitiva na Casa de Oxumarê, também conhecida como Ilé Òṣùmàrè Àṣẹ Àràká Ògódò. Este terreiro de candomblé, reconhecido como bem cultural afro-brasileiro, exerce papel central nessa aproximação entre Salvador e Oyó, atuando na articulação internacional para valorizar o patrimônio iorubá.
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Em 27 de novembro de 2013, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou o tombamento do Terreiro Ilê Axé Oxumarê pelo Iphan, garantindo sua proteção federal e reconhecendo sua importância na preservação da memória afro-brasileira. A visita do Alaafin reforçou o papel dos terreiros como guardiões da memória, espiritualidade, língua, rituais e conhecimentos tradicionais trazidos pela diáspora africana ao Brasil.
Cooperação que remonta a 2014 e importância dos terreiros matrizes
A aproximação entre Bahia e Oyó não é recente. Em 2014, durante uma visita à cidade nigeriana, integrantes da Casa de Oxumarê identificaram a vulnerabilidade de patrimônios históricos e culturais da antiga capital do Império Iorubá. Esse diagnóstico levou à formação de uma rede de cooperação entre terreiros matrizes do candomblé baiano, como Casa Branca do Engenho Velho, Ilê Axé Opô Afonjá, Terreiro do Gantois e Terreiro Alaketu, além de instituições brasileiras e nigerianas e órgãos de proteção patrimonial, como o Iphan e a Unesco.
No mesmo ano, a Bahia recebeu uma comitiva liderada pelo então Alaafin de Oyó, Olayiwola Adeyemi III, que veio compartilhar experiências locais de preservação cultural. Esse intercâmbio ajudou a estabelecer bases para a defesa do valor excepcional do patrimônio material e imaterial de Oyó.
Patrimônio iorubá conecta África Ocidental e Brasil
Oyó foi capital de um dos impérios mais influentes da África Ocidental, abrangendo áreas que hoje correspondem à Nigéria, Benim, Togo e Gana. O legado político, religioso, linguístico e tecnológico da cidade se difundiu por esses territórios e, pela diáspora atlântica, encontrou na Bahia um espaço fundamental para sua preservação.
Na Bahia, a cultura iorubá é parte estrutural da identidade local, refletida na religiosidade, na música, na culinária e nas práticas comunitárias de terreiros de candomblé. O reconhecimento internacional dessa herança é evidenciado pela presença de Old Oyo na Lista Indicativa de Patrimônio Mundial da Unesco desde 1995, embora a inscrição definitiva ainda dependa de etapas técnicas e decisões institucionais.
Babá Pecê destaca patrimônio vivo compartilhado entre Bahia e Nigéria
Segundo o babalorixá da Casa de Oxumarê, Sivanilton Encarnação da Mata, conhecido como Babá Pecê de Oxumarê, a relação entre Bahia e Oyó representa a continuidade de uma herança civilizatória que transcende fronteiras geográficas. Ele ressalta que a cultura iorubá, trazida pelos ancestrais, encontrou na Bahia um território de resistência e preservação.
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“Preservar a antiga capital do Império Iorubá significa também proteger a memória de parte da nossa própria história”, afirmou Babá Pecê. Essa reflexão reforça o papel dos terreiros matrizes como protagonistas de uma diplomacia cultural baseada na memória, ancestralidade e organização comunitária.
Conferência LASUCAS amplia diálogo sobre cooperação Sul-Sul
A 4ª Conferência Internacional LASUCAS, realizada na Bahia, ampliou o debate sobre a cooperação Sul-Sul entre Brasil e Nigéria, reunindo pesquisadores, universidades e instituições que discutem desenvolvimento, tecnologias sustentáveis, cultura e relações estratégicas. Desde o acordo firmado em 2020 entre a UFBA e a Universidade do Estado de Lagos, o evento fortalece os laços acadêmicos e institucionais entre os dois países.
Dentro desse contexto, o patrimônio iorubá deixa de ser apenas uma pauta cultural e passa a integrar uma agenda mais ampla, envolvendo relações internacionais, produção acadêmica, preservação documental e reconhecimento público da contribuição africana para a formação brasileira.
Preservação de Oyó exige continuidade e participação ativa
A visita do Alaafin de Oyó à Bahia possui forte significado simbólico e institucional, mas sua eficácia dependerá da continuidade das ações de cooperação. A patrimonialização internacional requer documentação técnica, articulação diplomática, envolvimento das comunidades tradicionais, respaldo acadêmico e o cumprimento dos critérios da Unesco, configurando um processo que vai além dos eventos protocolares.
Essa situação destaca também a importância dos terreiros matrizes, que historicamente preservaram parte essencial da história brasileira antes do reconhecimento oficial, funcionando como arquivos vivos da língua, oralidade, espiritualidade e resistência cultural afro-brasileira.
