Impactos Diretos nas Exportações
A atual situação geopolítica envolvendo o Irã exige atenção redobrada, conforme observa o advogado Frederico Favacho, sócio da Santos Neto Advogados. Ele destaca que os contratos não são automaticamente suspensos devido a eventos de força maior. Isso porque os exportadores brasileiros podem buscar alternativas, como rotas pelo Mediterrâneo, embora mais onerosas e complexas. “Essas alternativas, embora existam, carregam custos adicionais que podem afetar a competitividade”, acrescenta Favacho.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) afirma que está monitorando atentamente o desenrolar dos acontecimentos na região, mas até o momento, não foram reportados impactos significativos por parte das empresas associadas.
Avaliação no Setor de Biocombustíveis
O levantamento realizado pela XP sugere que a crise no Oriente Médio pode influenciar positivamente os preços do etanol. O relatório mostra que o conflito já gera uma escalada nos preços do petróleo, com os contratos do tipo Brent e WTI subindo mais de 2% em mercados como Londres e Nova York, atingindo valores acima de US$ 70 por barril. Essa valorização do petróleo pode beneficiar o biocombustível, uma vez que o etanol é competitivo em relação aos combustíveis fósseis.
Consequências para a Produção de Fertilizantes
Outro aspecto preocupante é que o Irã é um dos principais fornecedores de gás natural para a produção de fertilizantes, especialmente ureia, para países que exportam insumos nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria. Maísa Romanello, analista do mercado de fertilizantes da Safras & Mercado, afirma: “A interrupção do fluxo de gás pode impactar a disponibilidade de matérias-primas essenciais para a produção de fertilizantes, elevando os custos na agropecuária”.
Os preços da ureia já começaram a subir no Egito, passando de cerca de US$ 490/ton para quase US$ 540/ton, uma alta superior a 10%, segundo a consultoria StoneX. O analista Tomás Pernías ressalta que o Oriente Médio responde por uma parcela significativa das exportações globais de ureia, amônia e DAP. “Após o início do conflito, fornecedores da região interromperam suas ofertas à espera de uma clareza sobre a precificação futura”, explica.
Redirecionamento das Exportações
Os exportadores brasileiros estão repensando suas rotas para continuar a atender o mercado do Oriente Médio. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), informa que as exportações que costumavam passar pelo Canal de Ormuz e pelo Suez estão sendo redirecionadas para uma rota que passa pelo Cabo da Boa Esperança, ao sul da África. Isso deverá resultar em custos elevados e atrasos nas entregas, conforme Santin.
A ABPA destaca que aproximadamente 25% das exportações do setor de proteína animal do Brasil têm como destino o Oriente Médio, somando cerca de 200 mil contêineres anualmente. A MBRF, operando na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, afirmou que suas operações seguem normais, priorizando a segurança de seus colaboradores, enquanto a JBS se absteve de comentar a situação.
Desafios Logísticos e de Frete
Waldyr Promicia, vice-presidente da Abrafrutas, aponta que algumas empresas de frete marítimo já suspenderam o envio de embarcações para a região do Golfo Pérsico, o que compromete as exportações de frutas. “Inevitavelmente, teremos que interromper essas operações, ao menos temporariamente. Isso poderá sobrecarregar outros mercados com uma oferta maior de produtos”, lamenta.
A situação atual também levanta preocupações sobre a disponibilidade de contêineres, lembrando os desafios enfrentados durante a crise logística provocada pela pandemia de Covid-19. O Irã se destacou como o maior importador de milho brasileiro em 2025, absorvendo 9 milhões de toneladas, totalizando 23% das exportações do Brasil. Observações da Abramilho ressaltam que a questão mais crítica relacionada à tensão com o Irã é o fornecimento de fertilizantes, particularmente ureia, que é vital para a cultura do milho.
Incertezas no Mercado de Cargas
Nos próximos dias, dez navios estão programados para carregar cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo de soja com destino ao Irã. Arthur Neto, sócio-diretor da Alphamar, expressa preocupação com a segurança dessas cargas, especialmente após os recentes conflitos. “A incerteza em relação ao que acontecerá com essas embarcações é grande, uma vez que as tradings podem optar por redirecionar os navios para outras rotas”, conclui Neto, sublinhando o clima de apreensão que permeia o comércio exterior brasileiro neste momento delicado.
