Uma Viagem pelos Traços de Marcos Duprat
Após 48 anos dedicados à diplomacia, Marcos Duprat traz para o público uma nova faceta de sua vida ao expor suas obras na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. O artista, que já passou por várias cidades como Washington, Lima, Tel Aviv e Milão, agora se entrega à pintura em seu ateliê em Ipanema. Com 81 anos, ele apresenta 32 trabalhos na individual intitulada “Matéria e luz”, que ficará em cartaz até 3 de maio. A curadoria é de Luis Sandes e, após essa etapa, a exposição seguirá para o Ateliê Casa Um, em São Paulo.
As telas, dispostas em uma varanda envidraçada com vista para a movimentada Avenida Vieira Souto e a Praia de Ipanema, exploram cores e luz por meio da técnica da velatura. Obras como “Horizontes” (2025) e o díptico “Águas” (2023) revelam a habilidade de Duprat em capturar os reflexos e a ondulação das superfícies líquidas.
— Chego a passar dois meses em uma única tela. É preciso deixar secar para voltar a pintar por cima. Não me interesso em produzir rapidamente, a pintura desafia essa urgência do mundo atual — reflete Duprat. — O mercado de arte no Brasil mudou, hoje os preços são muito altos, mas no passado havia um forte laço de amizade entre os artistas, o que tornava tudo mais agradável.
Um Encontro de Gerações no Atelier Livre
Um dos locais onde Duprat costumava se encontrar com outros artistas era o Atelier Livre do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Foi lá que, no fim dos anos 1960, ele teve aulas com mestres renomados como Fayga Ostrower, Aluísio Carvão e Anna Bella Geiger. Após iniciar sua carreira diplomática em Brasília pelo Instituto Rio Branco, ele continuou a se aprimorar artisticamente, conquistando um mestrado na American University, em Washington, onde atuou a partir de 1974. Durante a mostra na Casa de Cultura Laura Alvim, o artista apresenta uma tela de sua primeira exposição, “Figura em interior” (1977), feita na capital americana.
— Os professores que tive eram influenciados pelo abstrato-expressionismo americano — relembra Duprat. — Lembro que, enquanto pintava um nu figurativo, achava que não fazia sentido dentro daquele contexto, mas eles me encorajaram a seguir meu instinto, ressaltando que artistas como De Kooning também trabalhavam com modelos vivos e desconstruíam a figura.
A Homenagem a Antonio Cicero
Entre os amigos feitos em Washington, um dos mais marcantes para Duprat foi o poeta e compositor Antonio Cicero, que ocupou a cadeira número 27 da ABL e faleceu recentemente, em decorrência da doença de Alzheimer. O texto que Cicero escreveu para a exposição de Duprat em 2018, realizada no Palazzo Pamphilj, em Roma, é apresentado agora como uma homenagem.
— Conheci Cicero ao chegar em Washington, onde ele fazia doutorado em filosofia. Ele vinha de uma família que sempre esteve atenta à arte e à cultura. Lembro da Marina, sua irmã, muito jovem, já envolvida com música — conta Duprat. — Conversei com o Marcelo (Pires, viúvo de Cicero) sobre incluir o texto dele na mostra, é uma maneira de trazer sua presença de volta ao público.
A Introspecção na Arte de Duprat
O texto de Antonio Cicero reflete sobre o “mundo interior” de Duprat, destacando suas representações de ambientes íntimos e a interação com a luz natural. Segundo o artista, essa introspecção é fundamental para a criação.
— Ele captou perfeitamente a essência do meu trabalho. Para pintar, é necessário um espaço de silêncio e disciplina — diz Duprat. — O que faço não tem pretensão de tensão social ou ideológica. É uma arte que busca tocar o ser humano de forma profunda, não imediata.
