Reflexões sobre o Dia Internacional da Mulher
O Dia Internacional da Mulher vai além de uma data comemorativa. Este 8 de março é um chamado à ação e à reflexão sobre a realidade alarmante enfrentada por mulheres no Brasil, que muitas vezes se vêem sobrecarregadas, violentadas e até mortas. Discutir a saúde mental feminina neste contexto é abordar questões de desigualdade estrutural, racismo, feminicídio e a cultura que banaliza o sofrimento das mulheres, em especial das mais vulneráveis, como as negras e as de baixa renda.
A psicóloga Paula Brito, que atua em Feira de Santana, observa os efeitos devastadores desta realidade em seu trabalho clínico. Os números, segundo ela, são preocupantes: “A depressão, por exemplo, é uma das condições mais impactantes globalmente. As mulheres apresentam quase o dobro da prevalência ao longo da vida. Isso está ligado à sobrecarga, à violência de gênero e às vulnerabilidades econômicas. As mulheres estão constantemente sob pressão estética e relacional, além de expostas a eventos traumáticos frequentementes”, afirma.
A Naturalização da Dor e a Sobrecarga Feminina
A sobrecarga que as mulheres enfrentam não é um fenômeno recente. Historicamente, as mulheres, em especial as negras, foram moldadas para cuidar, servir e sustentar a estrutura familiar e social. O estereótipo da “mulher forte”, que suporta tudo, ainda é utilizado para justificar negligências e violências, mesmo dentro de suas próprias casas.
Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) revelou que, em 2023, 84,5% dos brasileiros apresentam algum nível de preconceito contra mulheres. Esse preconceito é ainda mais exacerbado quando se considera a interseccionalidade entre raça, gênero e classe social.
“Mulheres são frequentemente convocadas a desempenhar múltiplos papéis simultaneamente. Muitas vezes, o trabalho doméstico é desconsiderado e elas se veem gerenciando suas tarefas enquanto respondem e-mails ou cuidam das crianças. Essa multiplicidade de funções afeta diretamente a saúde mental delas”, explicou a psicóloga.
Violência Cotidiana e o Medo Coletivo
Se no Carnaval as mulheres já enfrentam situações de risco, o que dizer do dia a dia? Um levantamento do Instituto Locomotiva, realizado em fevereiro de 2023, indicou que 45% das mulheres brasileiras – cerca de 38 milhões – já experimentaram assédio durante o Carnaval, e 78% relatam temor de vivenciar essa violência novamente.
A violência contra as mulheres não se restringe a ambientes informais. Dados recentes da Revista Ciência & Saúde Coletiva mostram que 60% das mulheres que morrem por causas obstétricas no Brasil são negras, evidenciando a negligência racial na assistência à saúde. Além disso, a violação simbólica se reflete em espaços de autoridade, como demonstrado por comentários desrespeitosos feitos por figuras públicas em relação a mulheres que ocupam funções de destaque, como árbitras de futebol.
O feminicídio, a forma mais extrema de violência de gênero, continua a crescer. Um estudo da Fundação Friedrich Ebert divulgado em novembro de 2025 revelou que as mortes de mulheres por razões de gênero aumentaram 176% em uma década, saltando de 527 casos em 2015 para 1.455 em 2025, sendo que 68% das vítimas eram negras.
Recentemente, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) alarmaram a opinião pública ao confirmar que o cenário de feminicídio permanece crítico, com números que indicam um aumento contínuo nos casos e destacam o perfil das vítimas e dos agressores.
O Impacto Social da Violência
A Bahia, em particular, apresenta índices preocupantes, com 57 feminicídios registrados entre janeiro e julho do ano passado, posicionando-se como o terceiro estado com mais casos, atrás de São Paulo e Minas Gerais, conforme o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
A violência tem um efeito reverberante na sociedade, instigando um medo coletivo que afeta a saúde mental de todas as mulheres. Casos recentes, como o de uma idosa de 71 anos estuprada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro, expõem a gravidade da situação, lembrando que a violência atinge mulheres de todas as idades e classes sociais.
Romantização da Exaustão e a Reflexão Necessária
As exigências da sociedade sobre as mulheres geram uma pressão imensa. Paula Brito destaca que a sociedade valoriza a mulher multitarefa, mas questiona: “Heroína de quê e a que custo?”. Essa sobrecarga constante pode resultar em sérios desdobramentos na saúde mental.
O descanso, segundo a psicóloga, é um ato de resistência. “Descansar não é sinal de fraqueza, mas sim uma necessidade para recuperar as forças e recomeçar com mais energia e propósito”. Ela enfatiza a importância de reconhecer a própria humanidade, permitindo-se não ser uma heroína a todo custo. Pedir ajuda é um passo fundamental para cuidar de si mesma.
“Devemos pensar na liberdade de sermos quem realmente somos, sem limitações impostas e lembrarmos sempre de cuidar de nossa saúde mental”, conclui Brito. A mensagem é clara: é essencial que as mulheres não apenas cuidem dos outros, mas também reconheçam a importância do autocuidado.
