As Mudanças e Desafios do Puerpério
Concluir o enxoval, decorar o quarto do bebê e revisar a mala da maternidade são etapas indispensáveis na preparação para a chegada de um filho. Contudo, muitas mulheres relatam que o início do puerpério pode ser um verdadeiro choque. Com noites mal dormidas, dificuldades na amamentação, visitas frequentes e comentários não solicitados, a sensação de solidão pode ser avassaladora. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, a preparação deve ir além da organização prática, começando durante a gestação, com diálogo sobre rotina, apoio, divisão de tarefas e saúde emocional.
“A adaptação psicológica não acontece na mesma velocidade que as mudanças físicas. Enquanto o puerpério representa uma adaptação do corpo feminino, que pode durar de duas semanas a seis meses, o pós-parto envolve um processo psicológico que pode se estender de dois a três anos”, explica Rafaela.
Expectativas vs. Realidade da Maternidade
Um dos primeiros passos para uma transição menos traumática é ajustar as expectativas. A psicóloga ressalta que a romantização da maternidade nas redes sociais pode aumentar sentimentos de culpa e inadequação diante das dificuldades reais, como noites mal dormidas e a agitação constante de um recém-nascido.
“A imagem da mãe feliz e realizada no puerpério pode ser apenas uma encenação para as redes sociais. Por trás daquela imagem cuidadosamente montada, há muitas mulheres enfrentando medos e angústias”, ressalta Rafaela, que frequentemente ouve queixas de mulheres que se sentem injustiçadas por não terem sido preparadas para a realidade do puerpério.
O Que é o Baby Blues?
Outro ponto importante diz respeito ao baby blues, que não deve ser confundido com a depressão pós-parto. Essa condição, que ocorre nos primeiros dias após o parto, é caracterizada por oscilações de humor, choro fácil e irritabilidade, durando de duas a três semanas. O suporte emocional é fundamental nesse momento.
Contudo, se os sintomas persistirem por mais tempo ou agravarem, é essencial procurar ajuda profissional para descartar a depressão pós-parto, que requer cuidados específicos.
A Maternidade e o Instinto Materno
Um equívoco comum é acreditar que a maternidade é instintiva. Rafaela enfatiza que essa ideia pode gerar culpa nas mães que não se sentem preparadas para lidar com o choro, os cuidados e o sono do bebê.
A maternidade é um aprendizado: “Não existe um instinto materno que faça com que a mãe saiba automaticamente como cuidar do bebê. Tudo isso é uma questão de aprendizado e comunicação com a criança”, explica a psicóloga.
Sentimentos de Amor Materno
Surpreendentemente, a conexão instantânea com o bebê não é uma experiência universal. Muitas mulheres sentem vergonha ao confessar que, ao dar à luz, não conseguiram sentir amor imediato pelo filho. Rafaela assegura que isso é normal e que a construção desse vínculo pode levar alguns meses.
Os Lutos do Puerpério
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a necessidade de lidar com as perdas que acompanham a nova rotina. Rafaela destaca a importância de reconhecer o “luto das pequenas coisas”, que envolve a perda da liberdade, do sono ininterrupto e do tempo a sós com o parceiro.
“A tristeza é uma parte normal do puerpério; sentir-se triste não significa que a mulher está deprimida, mas sim que está se adaptando a novas realidades”, enfatiza.
A Invisibilidade Materna
Por fim, a psicóloga menciona um fenômeno doloroso: enquanto a mulher recebe atenção durante a gestação, após o nascimento do bebê, o foco social tende a se deslocar inteiramente para a criança. Essa invisibilidade materna pode ser um impacto emocional significativo para muitas mães, reforçando a importância de manter redes de apoio e diálogos sobre saúde mental durante e após a gestação.
