Elza Anunciada: A Pescadora que Preserva Tradições e Saberes
Durante a Semana Santa, o peixe se torna o grande protagonista nas refeições de inúmeras famílias pernambucanas. Contudo, antes de chegar às mesas, em preparos que vão do leite de coco ao frito, passando por moquecas repletas de sabor e memórias, existe uma história que começa nas primeiras horas da manhã, quando o mar encontra aqueles que dela tiram seu sustento.
É nesse universo que reside Elza Anunciada da Silva, uma pescadora de 60 anos, residente no Janga, em Paulista, e membro ativo da Colônia Z2. Mãe de três filhos e casada há 36 anos, Elza carrega em seu corpo e em sua fala a bagagem de uma vida dedicada ao mar e à transmissão de saberes tradicionais.
Nascida em uma família numerosa de 14 irmãos, divididos igualmente entre homens e mulheres, a pesca deixou de ser uma simples paisagem em sua infância para se tornar seu destino. Essa paixão vem do pai, João Hilário, um pescador respeitado na região. “Meu pai foi um homem de honra e força. Ele me ensinou a amar o mar desde pequena”, relembra Elza, ao compartilhar uma de suas memórias mais antigas: “Lembro de quando ele lançou a tarrafa e pegou uma quantidade imensa de tainha. Era um espetáculo”, diz, com um brilho nos olhos. Com o passar do tempo, o ofício foi compartilhado com seu marido, que aprendeu ao lado dela.
Residente na Rua Caxambu, no Loteamento Conceição, onde também comercializa seus peixes, Elza mantém uma relação estreita com a comunidade. Ao passar pelo seu comércio, as pessoas encontram não apenas o pescado fresco, mas o resultado de um trabalho que exige habilidade, resiliência e um profundo entendimento do mar.
“É gratificante ver as pessoas comprando o peixe que eu mesma pesquei”, afirma, com orgulho palpável em sua voz. Entre as espécies que compõem suas capturas estão tainha, carapeba, bagre, arraia, cambuba e coró. Esses peixes, para além de serem ingredientes, carregam consigo tradições culinárias que atravessam gerações.
Na Semana Santa, essas iguarias se transformam em pratos que refletem a identidade cultural pernambucana. “O bagre é o melhor para preparar no leite de coco, porque é muito saboroso e carnudo”, explica Elza, mostrando a expertise que adquiriu ao longo dos anos. “Fica maravilhoso!”, completa. As opções podem variar entre camurim, conhecido como robalo, salema e carapeba, dependendo das condições do mar e da sorte do dia.
Por detrás da simples lista de peixes, Elza revela um saber tradicional, que é moldado na prática e se perpetua no cotidiano. Conhecer o local adequado para a pesca, a época ideal, o tipo de peixe e a forma como ele deve ser preparado são partes de uma tradição que não apenas sustenta famílias, mas também alimenta a cultura do Estado.
Esse conhecimento inclui, igualmente, a leitura atenta do mar. “Quando a água está parada e não vemos os peixes se movendo, sabemos que a pesca será fraca. Há dias em que a água está quente e escura, e o peixe some”, conta Elza. Durante períodos como a Semana Santa, quando o consumo de pescado aumenta, histórias como a dela ajudam a lembrar que o alimento que chega à nossa mesa tem um rosto e uma trajetória, originando-se do esforço de homens e mulheres que, como ela, desafiam o mar para preservar tradções ancestrais.
Entretanto, a vida de pescador não é feita apenas de sucessos; os retornos nem sempre são garantidos. “Há dias em que consigo pegar apenas um ou dois peixes, ou até mesmo só sargaço”, revela. Apesar dos desafios, Elza continua em frente.
Diante das dificuldades e da beleza que seu ofício traz, é no mar que ela encontra sentido. “Pescar é uma sensação incomparável. Eu me sinto realizada”, conclui. Se tivesse que definir a pesca em uma palavra, não hesitaria: “É felicidade. É amor!”.
