Análise do Cenário Logístico: Minas e Bahia
Para nós, baianos, a inveja, em certas circunstâncias, pode ser vista como um motor de aspiração. Devemos sempre querer que o vizinho estado de Minas Gerais prospere em sua infraestrutura para um desenvolvimento robusto. No entanto, quando olhamos para o recente anúncio de R$ 100 bilhões em investimentos logísticos por Minas, feito em março pelo secretário-executivo e atual ministro dos Transportes, é impossível não sentir uma pontada de inveja.
Esse montante foi revelado durante o Eloos Itatiaia – Ciclo Cidades e Infraestrutura, destacando que R$ 62,5 bilhões serão direcionados a rodovias e R$ 38 bilhões a ferrovias. Para este ano, Minas planeja realizar 13 leilões de concessões rodoviárias, consolidando sua posição como “a espinha dorsal da integração nacional”.
O Cenário Baiano: Reflexos do Isolamento Logístico
Por outro lado, o panorama da Bahia apresenta desafios preocupantes. A economia do estado, afetada por uma crise persistente decorrente do isolamento logístico, enfrenta reflexos negativos não apenas locais, mas também sobre o Nordeste e a economia do Brasil. Para 2026, apenas dois leilões rodoviários estão programados: a Rota dos Sertões e a Rota 2 de Julho. Além disso, a situação ferroviária é crítica, com as concessões da Fiol I/Porto Sul e a renovação da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) pendentes de resolução.
Atualmente, a concessão da Rota dos Sertões, que abrange um trecho da BR-116-Norte, está em andamento, com leilão agendado para 28 de maio. A nova licitação da Rota 2 de Julho, que cobre a BR-324, está prevista para julho, mas as obras efetivas, se tudo ocorrer conforme planejado, só deverão iniciar em 2028. Essa situação deixa claro que, enquanto Minas avança, a Bahia continua presa a um ciclo de estagnação.
Desafios Ferroviários e Portuários da Bahia
No setor ferroviário, três desafios principais precisam ser superados. O mais urgente é a renovação da concessão da FCA, que precisa ser encaminhada ao Tribunal de Contas da União (TCU) ainda em abril. É uma situação delicada, já que a concessão, com 30 anos de duração, está prestes a expirar. A boa notícia é que a colaboração de Minas Gerais pode ser um fator positivo nesse processo.
A antiga malha ferroviária da Bahia, que estava prevista para devolução, agora inclui a Ferrovia Minas-Bahia, que conecta Corinto (MG) a Campo Formoso, graças a esforços mineiros. Entretanto, a Fiol I e o Porto Sul, atualmente sob responsabilidade da Bamin, enfrentam atrasos significativos nas obras e na implementação do porto, com negociações atuais visando a transferência da concessão a um consórcio português-chinês.
Infraestrutura Portuária e Aeroportuária: O Que Está em Jogo?
Na área portuária, a concessão parcial da Codeba, que administra os portos de Salvador, Aratu-Candeias e Ilhéus, foi duramente questionada em audiência pública. Isso resultou em um retorno ao BNDES para reexame, enquanto a Codeba foi encarregada de gerenciar o Porto de Itajaí, em Santa Catarina.
Recentemente, os terminais de Lençóis (Chapada Diamantina) e Paulo Afonso foram leiloados e entregues a uma concessionária em Guarulhos, mas o aeroporto de Guanambi não recebeu propostas. Essa realidade evidencia a necessidade urgente de mais investimentos em infraestrutura na Bahia, que continua estrangulada economicamente.
Urgência em Investimentos: O Que a Bahia Precisa Agora?
É crucial que a concessão da BR-242, que conecta Luís Eduardo Magalhães a Rafael Jambeiro, seja realizada o quanto antes. Essa rodovia é essencial para o transporte de grãos e algodão do Oeste baiano em direção aos portos da Baía de Todos os Santos, onde atualmente as condições de tráfego são precárias e perigosas.
Além disso, a BR-101, que se estende da divisa com o Espírito Santo à divisa com Sergipe, está praticamente abandonada em termos de movimentação para concessão. A situação é particularmente grave no Extremo Sul baiano, onde o tráfego intenso de cargas e turismo demanda atenção urgente. A inclusão de Mucuri em concessão de outro estado por conta de interesses privados é mais um exemplo da negligência em relação à Bahia.
Por fim, embora a concessão parcial da Codeba tenha seus objetivos, é imperativo que as ampliações nos terminais de líquidos e gasosos sejam claramente definidas. A dragagem dos canais de acesso aos portos de Salvador e Aratu-Candeias, bem como a ampliação da capacidade do Tecon-Salvador, que é vital para atender à demanda crescente, também deve ser uma prioridade.
A Hidrovia do Rio São Francisco, apesar de sua relevância estratégica, continua fora da lista de prioridades do Ministério dos Portos e Aeroportos. É fundamental que o governo reconheça sua importância e retome as discussões para garantir que a Bahia não permaneça à mercê de outras regiões. As necessidades de infraestrutura são urgentes, e a Bahia não pode continuar sendo negligenciada.
