A Escalada nos Preços de Fertilizantes e o Impacto no Agronegócio Brasileiro
A recente disparada nos preços dos fertilizantes e as novas restrições de exportação impostas pela China e Rússia evidenciam a vulnerabilidade do Brasil em relação aos insumos importados. Essa situação, se não for contornada, poderá levar a uma alta nos preços dos alimentos. Com o aumento dos conflitos no Irã, um dos principais produtores de ureia, os dois maiores exportadores de fertilizantes do mundo agora se veem forçados a restringir suas vendas.
Para os agricultores, as dificuldades em gerenciar os custos tornam-se evidentes, criando um quadro propenso a uma inflação alimentícia a partir da próxima safra. Um relatório da consultoria agro do Itaú BBA revela que, com o agravamento das tensões no Oriente Médio, o preço da ureia chegou a saltar para US$ 710 por tonelada no Porto de Santos, refletindo uma elevação de 50% em apenas 30 dias. Os demais fertilizantes também estão sujeitos a pressões, embora em menor grau.
A incerteza se deve ao papel preponderante do Oriente Médio e do Norte da África como fornecedores de produtos nitrogenados e rochas fosfáticas. A logística internacional tem sido severamente afetada pelos conflitos no Mar Vermelho, o que agrega até 15 dias ao tempo de entrega e, consequentemente, aumenta os custos do frete.
Rússia e China: Foco em Mercados Internos
Nesse cenário, tanto a Rússia quanto a China têm adotado medidas de restrição em suas exportações. A Rússia suspendeu temporariamente as vendas de nitrato de amônio, enquanto a China limitou a exportação de fertilizantes fosfatados. Essas iniciativas visam priorizar o abastecimento interno, evitando o aumento de custos para seus próprios setores agropecuários, mas, ao mesmo tempo, resultam em uma oferta global ainda mais escassa.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a Rússia é a maior fornecedora de fertilizantes do Brasil, respondendo por 25,9% das importações brasileiras de insumos químicos em 2025. Por sua vez, a China ocupa a terceira posição nesse ranking, com cerca de 40 milhões de toneladas de fertilizantes em bloqueio ou com cotas rígidas, segundo informações da agência Reuters.
Inflação Alimentar em Perspectiva
A redução da oferta global e a elevação dos preços não devem impactar o agronegócio brasileiro de forma imediata, visto que os fertilizantes para a atual safra já foram adquiridos. Contudo, se a situação persistir até o segundo semestre, as novas remessas de insumos chegarão com preços já inflacionados. As expectativas indicam que os embarques russos devem ser liberados em maio, enquanto a retomada das vendas chinesas está prevista apenas para agosto, uma situação que pode afetar o início do plantio da safra 2026/27.
Analistas da Cogo Inteligência em Agronegócio alertam que, além da dinâmica do mercado de fertilizantes, a volatilidade cambial e os custos logísticos globais também pressionam as projeções para as próximas safras. A alta nos preços do petróleo e a necessidade de desvio de rotas devido ao fechamento do Estreito de Ormuz têm contribuído para o aumento dos custos do transporte marítimo.
Riscos no Setor de Fertilizantes e a Estagnação do PNF
Recentes análises do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) destacam o “elevadíssimo risco” associado ao setor de fertilizantes no Brasil, com uma ameaça iminente de aumento nos preços internos e até mesmo de desabastecimento para a próxima safra. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que visa reduzir a dependência externa de 85% para uma faixa de 45% a 50% até 2050, ainda não mostrou avanços significativos nos primeiros anos de implementação.
A senadora Tereza Cristina (PL-SP), responsável pelo lançamento do PNF durante sua gestão no Mapa, criticou a falta de ação política efetiva em resposta às crises anteriores, como a decorrente do conflito entre Rússia e Ucrânia. Segundo ela, o Brasil não apenas repete erros do passado, mas também se encontra em um contexto ainda mais crítico, repleto de riscos de alta nos preços e desafios logísticos.
Embora não haja uma ameaça imediata de desabastecimento, a possibilidade já gera preocupações. A combinação de rotas comprometidas, navios parados, aumento de preços e usinas afetadas sinaliza a necessidade de um comitê de crise para avaliar alternativas e mitigar os riscos.
Desafios para a Produção Nacional
A baixa competitividade do Brasil no setor de fertilizantes não resulta da falta de matéria-prima, mas sim de problemas estruturais que dificultam a expansão da produção interna. No caso dos nitrogenados, o principal obstáculo é o alto custo do gás natural, que chega a custar até US$ 14 por milhão de BTUs, se comparado aos US$ 2 a US$ 4 pagos por indústrias em países como EUA e Rússia. Na produção de potássio, projetos encontram entraves regulatórios e disputas judiciais, especialmente em áreas sensíveis como a bacia do Rio Amazonas.
Além disso, a tributação elevada sobre a cadeia produtiva nacional torna os fertilizantes brasileiros mais caros que os importados, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Esse cenário desestimula a atração de investimentos e perpetua a dependência externa, acendendo um alerta sobre a necessidade de mudanças para garantir a segurança do agronegócio brasileiro.
