A Situação Crítica no Estreito de Ormuz
São Paulo – O cenário de incertezas causado pelo “abre e fecha” do estreito de Ormuz tem gerado preocupações significativas no agronegócio brasileiro. Essa região é uma rota vital para a entrega de produtos e insumos destinados ao Oriente Médio e à China. As restrições em Ormuz estão atrapalhando os planos das empresas brasileiras, já que, com o conflito em curso, operadoras logísticas implementaram uma “taxa de guerra” para realizar as entregas por rotas alternativas.
Recentemente, o Irã havia anunciado que liberaria a passagem de navios por Ormuz por conta de uma trégua com os Estados Unidos, mas no último sábado (18), a decisão foi revertida, e a via continua fechada neste domingo.
Impacto nas Exportações Agrícolas
No ano passado, o agronegócio brasileiro alcançou impressionantes US$ 169,2 bilhões em exportações. Deste montante, US$ 12,4 bilhões foram direcionados ao Oriente Médio, representando 7,4% do total exportado pelo país. Contudo, Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), destaca que a continuidade das restrições em Ormuz prejudica os volumes de exportação das empresas brasileiras para a região.
“O principal impacto para as empresas é em relação aos custos e ao grande esforço para garantir as entregas via rotas alternativas”, afirma Santin. “Estamos na torcida por um acordo em breve, pois a situação está desafiadora para manter os volumes, mas, mesmo em meio ao conflito, a parcial de abril indica que as vendas estão se mantendo.”
Rotas Alternativas a Alto Risco
Para contornar a situação, as exportações de commodities agrícolas têm sido redirecionadas pelo mar Vermelho, canal de Suez e estreito de Bab el-Mandeb. Embora essa rota represente alto risco, atualmente é a opção mais viável. Por conta das ameaças de ataque dos rebeldes houthis no mar Vermelho, muitos cargueiros estão optando por desviar a rota pelo Cabo da Boa Esperança, localizado no extremo sul da África.
Essa região é um dos principais destinos das exportações brasileiras de carne de frango e milho, com o Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos figurando entre os maiores compradores das commodities do Brasil.
Dependência de Insumos e Seus Efeitos
Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper, acredita que as empresas brasileiras conseguirão encontrar uma alternativa para atender ao mercado, devido à dependência significativa desses países das exportações brasileiras. “O Irã, por exemplo, é um dos grandes compradores de milho do Brasil, fundamental para a produção de frango no país”, observa Jank.
No entanto, Jank alerta que o principal desafio atualmente reside na área de insumos. O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo e Ormuz desempenha um papel essencial na exportação desses produtos. Aproximadamente 40% das exportações globais de ureia, 30% de amônia, 24% de fosfatos e 50% de enxofre transitam pelo estreito. Essa realidade torna o Brasil altamente dependente de tais importações.
“Estamos em uma situação bastante complicada no que tange aos fertilizantes. Esse é o problema central hoje. Para que os insumos cheguem até nós, especialmente os produtos à base de nitrogênio e enxofre, a abertura do estreito é fundamental. A safra começa em setembro, mas os fertilizantes precisam ser entregues anteriormente, o que configura um grande obstáculo”, explica Jank.
Aumento dos Custos Logísticos
A MBRF, responsável pelas marcas Sadia e Perdigão, também tem sentido os efeitos das restrições impostas no estreito de Ormuz. O tempo médio para entrega na região aumentou de 40 para mais de 60 dias, o que representa um acréscimo de pelo menos 50% nos prazos.
“Os custos de frete subiram devido à chamada ‘taxa de guerra’, uma vez que a região enfrenta um conflito armado. Além disso, a logística terrestre, que envolve o transporte de mercadorias, também encareceu, assim como os custos de armazenagem, que subiram consideravelmente”, declarou Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da empresa.
