Recuperações judiciais e extrajudiciais ganham força no Brasil
Esta semana marcou mais dois grandes pedidos de recuperação no país. O Grupo Gennius, responsável pelas redes Habib’s, Ragazzo e Tendall, entrou com pedido de recuperação judicial para reorganizar suas dívidas. Paralelamente, a petroquímica Braskem optou pela recuperação extrajudicial, buscando renegociar seus compromissos financeiros diretamente com credores.
Com esses episódios, agosto já contabiliza cinco casos emblemáticos: três recuperações judiciais e duas extrajudiciais. Entre as empresas afetadas estão Alliança Saúde, Marabraz e casas bahia. No acumulado do ano, o número chega a 12 pedidos de recuperação, evidenciando a pressão sobre diversos setores da economia.
O que significam os pedidos de recuperação
A recuperação judicial permite que as empresas façam a renegociação de suas dívidas sob a supervisão da Justiça, buscando evitar a falência e garantir a continuidade das operações. Já a recuperação extrajudicial ocorre por meio de acordos diretos entre a companhia e seus credores, sem intervenção judicial, mas com o mesmo objetivo de preservar a empresa.
O impacto das dificuldades financeiras tem atingido áreas como saúde, indústria e energia, mas é no varejo e consumo que a concentração dos pedidos é maior. “No varejo de bens duráveis, a pressão é dupla: os varejistas enfrentam custos financeiros elevados e precisam manter estoques altos, enquanto os consumidores dependem de parcelamentos para adquirir produtos”, explica André Matos, CEO da MA7 Capital.
Implicações para o consumidor e a economia
Especialistas consultados avaliam que o aumento dos pedidos de recuperação deve continuar, mas não representa um risco imediato ao consumidor ou ao sistema econômico mais amplo. Júlio Moretti, CEO da NEOT, destaca que “o cenário turbulento para as empresas deve persistir pelos próximos dois a três anos, mas não configura um risco sistêmico”.
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Segundo Moretti, embora possa haver retrocessos em aspectos como emprego e renda, o atual momento ainda não ameaça a estabilidade econômica de forma generalizada.
Principais causas das recuperações judiciais e extrajudiciais
Diversos fatores estão por trás dessa onda de pedidos, entre eles juros elevados, endividamento acumulado desde a pandemia, dificuldade de acesso ao crédito e mudanças no comportamento dos consumidores. Para Cristina de Mello, professora da PUC-SP, cada caso tem suas particularidades, mesmo que algumas causas se repitam. Por exemplo, na Marabraz, conflitos societários e familiares dificultaram a renovação de financiamentos.
Além disso, o varejo sofre por operar com margens apertadas, o que torna o capital de giro essencial para manter as operações. Eduardo Terra, fundador da BTR Retail, destaca que muitas empresas contraíram dívidas no pós-pandemia esperando recuperação de lucros, mas foram surpreendidas pelo aumento da taxa Selic, que chegou a 15%, elevando o custo dessas dívidas.
Casos emblemáticos e seus impactos
O Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, enfrenta dificuldades com cerca de R$ 1 bilhão em dívidas e já fechou mais de 17 lojas. O St Marche, parte do Grupo Hortus, negocia R$ 574,3 milhões em dívidas e aguarda aprovação judicial para sua venda ao grupo chileno Cencosud.
Na área da saúde, a Oncoclínicas busca renegociar R$ 5,1 bilhões em dívidas, enquanto a Alliança Saúde propõe converter parte das dívidas em participação na empresa para equilibrar as finanças.
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A Marabraz, com cerca de R$ 140 milhões em dívidas, tenta preservar empregos e manter suas operações, enfrentando dificuldades no acesso ao crédito devido a rupturas internas. As Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, passaram por reestruturação que resultou no fechamento de quase 300 lojas e demissão de cerca de 3 mil funcionários.
A Braskem, uma das maiores petroquímicas do país, enfrenta uma dívida bilionária, que soma aproximadamente R$ 187,1 bilhões se consideradas as dívidas entre empresas do grupo. A empresa justifica sua situação pelos custos decorrentes do desastre geológico em Maceió e pela piora do mercado petroquímico global.
Por fim, o Grupo Gennius, que inclui Habib’s, Ragazzo e Tendall, pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 265,2 milhões em dívidas, citando a pandemia, mudanças no consumo e juros altos como principais causas.
O que esperar para os próximos meses
O aumento dos pedidos de recuperação reflete um ajuste necessário diante dos desafios econômicos atuais. Para consumidores e investidores, o acompanhamento dessas movimentações é fundamental para entender o impacto no consumo, emprego e oferta de produtos.
Embora não represente uma crise sistêmica, a sequência de recuperações mostra a necessidade de atenção às condições de crédito, à gestão financeira e às mudanças no comportamento do consumidor. O cenário deve continuar desafiador, especialmente para o varejo, que sente na pele a combinação de juros elevados, endividamento e consumo mais cauteloso.
