O aumento dos pedidos de recuperação judicial no Brasil
Empresas como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz e Braskem estão entre as várias companhias brasileiras que recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial neste ano. De acordo com a consultoria RGF, especializada na reestruturação empresarial, os casos desse tipo cresceram 66% nos últimos três anos, totalizando 6.341 no segundo trimestre de 2026. O varejo, a indústria de transformação e o agronegócio são os setores mais afetados, representando juntos quase 60% dos pedidos.
Na recuperação judicial, como no caso da Americanas desde 2023, todas as dívidas da empresa são renegociadas sob supervisão da Justiça, envolvendo credores trabalhistas, fornecedores e instituições financeiras. A recuperação extrajudicial, por sua vez, permite que a empresa negocie diretamente com um grupo selecionado de credores, homologando depois o acordo judicialmente. Ambas as modalidades buscam evitar a falência, situação em que a empresa não tem condições de pagar suas dívidas e precisa encerrar as operações, como ocorreu com a Oi recentemente.
O impacto da alta taxa de juros e a pressão sobre o varejo
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, admitiu que o varejo sofre com a taxa básica de juros elevada, atualmente em 14% ao ano. Esse cenário dificulta o acesso ao crédito para comprar estoques e vender aos consumidores. Apesar disso, ele descartou a existência de uma crise econômica generalizada, ressaltando indicadores positivos em diversos setores.
Especialistas, entretanto, apontam que a combinação da alta prolongada dos juros, erros na gestão e as transformações no mercado de trabalho têm provocado um aumento significativo nos pedidos de recuperação judicial, principalmente no varejo. O crédito mais caro eleva exponencialmente as dívidas das empresas, enquanto o consumidor enfrenta restrições financeiras devido ao alto índice de inadimplência, que já atinge 39% da população.
Gestão fragilizada e desafios na retenção de talentos
Muitas empresas reduziram drasticamente suas equipes gerenciais na última década para cortar custos e ganhar agilidade. Essa concentração de poder em poucos executivos torna decisões equivocadas mais perigosas para os negócios. Além disso, a valorização decrescente dos funcionários que começam a carreira dentro das empresas contribui para a escassez de mão de obra qualificada.
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Fabian Salum, professor da Fundação Dom Cabral, destaca que esse fenômeno é resultado tanto de fatores externos, como restrições no acesso a capital e aumento da alavancagem pós-pandemia, quanto de falhas internas, como a redução da média gerência, que é crucial para a tomada de decisões táticas entre a base operacional e a alta direção.
Consequências das decisões precipitadas durante a pandemia
O período entre 2020 e 2021 foi marcado por investimentos rápidos em tecnologia e comércio eletrônico, essenciais para a adaptação das empresas à pandemia. No entanto, essas iniciativas ocorreram sem planejamento para cenários de alta nos juros, afetando a saúde financeira das companhias. Dados do Caged mostram que, entre 2020 e 2025, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria, com um saldo negativo de 112 mil postos, refletindo cortes que podem ter comprometido a capacidade de recuperação.
A importância do equilíbrio entre cortes e investimentos
Especialistas alertam para a necessidade de cautela nos ajustes feitos durante processos de recuperação. Cortes mal planejados podem levar à perda de profissionais qualificados e sobrecarga das equipes restantes, prejudicando a retomada dos negócios. André Pimentel, da consultoria Performa Partners, ressalta que o varejo sofre particularmente com a escassez de gestores preparados, já que muitos preferem setores menos exigentes.
Casos como o das Casas Bahia ilustram esse desafio: a empresa fechou 298 lojas e demitiu quase 2 mil funcionários durante a recuperação judicial, mas a Justiça determinou a reintegração provisória de parte das equipes. Segundo Pimentel, muitas unidades deveriam ter sido encerradas antes, já que não se sustentam financeiramente, mas a pressão por expansão acelerada prevalece.
Pressões por crescimento e os riscos para as empresas
O desejo de apresentar resultados rápidos para acionistas leva empresas a buscar crescimento além de sua capacidade real de geração de caixa, recorrendo a financiamentos caros. Essa prática aumenta a vulnerabilidade financeira e pode resultar em insolvência. A governança corporativa frágil, evidenciada em casos como Americanas e Raízen, reforça a necessidade de decisões mais responsáveis na gestão.
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O papel da tecnologia e o impacto no quadro de funcionários
A psicóloga Betania Tanure destaca que a adoção acelerada de tecnologia tem gerado incertezas, levando gestores a cortes de pessoal que comprometem a qualidade do trabalho. Reduzir entre 10% e 20% da força de trabalho durante crises pode ser um erro grave, pois sobrecarrega os colaboradores restantes e diminui a eficiência operacional.
Isabella Vasconcellos, da ESPM, reforça que a estrutura de capital das empresas seguirá pressionada enquanto a taxa Selic permanecer alta, pelo menos até 2028. Mesmo com aumento nas vendas, os custos financeiros consomem o caixa, agravando a situação em períodos de desaceleração do consumo.
Riscos para o futuro e a necessidade de ajustes profundos
Felipe Tanus, da Allianz Trade Brasil, alerta que juros elevados e má gestão são os principais fatores que elevam o risco de insolvência. Fraudes e expansões mal planejadas aumentam a vulnerabilidade das empresas, que precisam de governança mais rigorosa para evitar colapsos financeiros.
A situação atual pressiona trabalhadores, muitos com salários comprometidos por empréstimos consignados, e aumenta a demanda por redução das taxas de juros pelo Banco Central. A continuidade dessa tendência de recuperação judicial indica que ajustes profundos são essenciais para garantir a sustentabilidade das empresas brasileiras.
