História e importância da Avenida Sete
A Avenida Sete, um dos principais cartões-postais de Salvador, tem sua origem na Ladeira de São Bento, ponto inicial onde se localizam o prédio SULACP à direita e o antigo edifício da Companhia das Águas do Governo do Estado, agora ocupado por moradores de rua. Em 1915, data da inauguração oficial da avenida, a região era marcada por construções emblemáticas, como o Hotel Sul Americano, inaugurado em janeiro de 1896 no local do antigo Hotel Bonau, e o Hotel Paris, conhecido até a década de 1970 como o “hotel dos prefeitos”. Ambos representavam o luxo da época, hospedando coronéis, artistas e estrangeiros, além de abrigar restaurantes e eventos sociais de prestígio.
Contexto urbano e transformações iniciais
Na virada do século XX, a Avenida Sete já integrava um sistema de transporte coletivo composto por bondes puxados a burros, que circulavam em pontos estratégicos da região, como a esquina da São Bento de Baixo (atual Carlos Gomes). O traçado inicial da avenida, idealizado em 1910 por Jerônimo Teixeira de Alencar Lima, foi ajustado para evitar áreas já consolidadas do centro histórico, começando no sopé da praça Castro Alves. Antigas vias e aldeias tupinambás, como a Gamboa de Cima e Baixo, compunham o entorno, enriquecendo o contexto cultural e social do local.
O processo de decadência da Ladeira de São Bento
Hoje, em 2024, a Ladeira de São Bento apresenta um cenário de abandono e degradação. O antigo prédio da Companhia das Águas, que ainda pertence ao governo estadual, transformou-se em um abrigo precário para moradores de rua, com a presença de placas lacrando o acesso. A área ao redor é marcada por estabelecimentos comerciais variados, muitos fechados ou em ruínas, como o Edifício Oxumaré, que já abrigou a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Salvador entre 1997 e 2004, e agora funciona com escritórios diversos e uma repartição municipal.
O comércio local, antes vibrante, sofreu um declínio acentuado. O movimento de consumidores reduziu-se drasticamente, reflexo das mudanças institucionais que deslocaram o centro administrativo da cidade para outras regiões. A criação do Centro Administrativo da Bahia em 1972, a instalação da Assembleia Legislativa em 1983 e a expansão dos grandes shoppings na zona Norte e Sul a partir da década de 1970 contribuíram para essa transformação.
Impactos institucionais e urbanísticos no comércio e na circulação
Quando inaugurada, a Avenida Sete contava com o transporte coletivo predominante baseado em bondes elétricos, que facilitavam o acesso ao centro histórico. Nas décadas seguintes, a substituição dos bondes por ônibus e o crescimento do uso do automóvel alteraram significativamente o fluxo de pessoas e mercadorias. O surgimento de shoppings centers como Iguatemi (1975), Barra (1987) e Salvador (2007) atraiu o público consumidor para outras áreas, reduzindo a frequência na Sete e na Rua Direita do Palácio.
Esses deslocamentos impactaram diretamente a dinâmica econômica e social da região do São Bento, que não conseguiu se recuperar completamente desde então. O aumento da violência e a predominância do transporte individual contribuíram para o isolamento da área, provocando o fechamento de lojas e a deterioração dos espaços públicos.
Preservação e resistência local
Apesar da decadência, ainda é possível identificar resistência por parte de comerciantes e profissionais liberais que mantêm suas atividades na região. Edifícios históricos, como o SULACP, permanecem em funcionamento, abrigando escritórios e pequenas lojas. A requalificação do antigo prédio da “Casa do Esperanto”, transformado em biblioteca Anísio Teixeira entre 2012 e 2022, evidencia esforços institucionais para preservar elementos culturais e arquitetônicos da Avenida Sete.
Na pracinha de São Bento, o busto do filólogo polonês Lazar Ludwig Zamenhof, criador do esperanto, foi restaurado e mantido como símbolo da herança cultural da área. Todavia, a presença constante de moradores de rua e a precariedade dos edifícios adjacentes refletem os desafios urbanos enfrentados atualmente.
Perspectivas e próximos movimentos
A trajetória da Avenida Sete, da efervescência econômica do início do século XX até o quadro atual de decadência, reflete as transformações institucionais, urbanísticas e sociais que redesenharam Salvador. O deslocamento do centro de poder para outras regiões e as mudanças na mobilidade urbana tiveram efeitos duradouros que ainda precisam ser enfrentados pelas autoridades municipais e estaduais.
O futuro da Ladeira de São Bento e da Avenida Sete dependerá das políticas públicas voltadas para a restauração, segurança e revitalização comercial, além do engajamento dos setores público e privado para resgatar a relevância histórica e funcional dessa área na capital baiana.
