Casas Bahia Recorrer à Recuperação Judicial em Meio à Crise do Varejo
O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial após acumular R$ 17,3 bilhões em dívidas e registrar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões somente no segundo trimestre do ano. O cenário da varejista reflete as dificuldades vividas por outras grandes redes, que enfrentam fechamento de lojas, demissões e problemas com fornecedores. Especialistas consultados pelo DIA analisam como essa situação afeta a economia do Rio de Janeiro.
Reestruturação e Dificuldades Financeiras da Casas Bahia
Em 2024, a Casas Bahia obteve a homologação de um plano de recuperação extrajudicial para reorganizar suas dívidas. No entanto, pouco mais de dois anos depois, a empresa voltou ao Judiciário com um pedido de recuperação judicial mais amplo. O grupo aponta juros elevados, crédito restrito e piora nas condições financeiras como fatores que dificultam a recuperação.
Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia, reconhece que embora tenham ocorrido transformações importantes na empresa, elas não foram suficientes para enfrentar o cenário atual: “Nos últimos anos, fizemos um trabalho importante de transformação da companhia. Mas precisamos reconhecer que essa evolução, embora crucial, não foi suficiente diante de um cenário de crédito mais restritivo, juros elevados e consumo pressionado.”
Segundo dados da empresa, 298 lojas físicas foram fechadas em todo o Brasil, resultando na perda de 1,9 mil empregos. No Rio de Janeiro, onde havia 90 filiais em maio, não foi detalhado quantas unidades foram afetadas. A estratégia do grupo agora é operar uma estrutura menor e mais focada em atividades que gerem retorno e caixa, preservando operações com maior capacidade econômica, ajustando custos e investimentos, acelerando o giro de estoques e reduzindo a necessidade de capital empregado.
O Crédito e o Varejo Físico Sob Pressão
O professor Vicente Ferreira, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que o crédito ainda é vital para o varejo brasileiro, mas permanece caro. “Mesmo com a Selic caindo um pouco, isso praticamente ainda não teve efeito nas taxas de crédito para o consumidor. As famílias também estão no limite do endividamento, e os efeitos do Desenrola ainda vão levar algum tempo para serem sentidos na recuperação do poder de compra.” Para o professor, o avanço das vendas digitais e dos marketplaces torna o cenário ainda mais desafiador, pois os juros altos afetam também o custo de financiar estoques das empresas.
Entidades locais, como o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio) e o Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio), atribuem o fechamento de lojas e o aumento de pedidos de recuperação judicial à política de estabilização inflacionária e à alta taxa de juros reais, que atingem especialmente empresas descapitalizadas. Segundo nota oficial, “o peso dos juros nas alturas encarece o capital e também afeta contrariamente o consumo, investimentos e crédito”, o que faz o comércio retrair e expõe sua fragilidade.
Leia também: Como a Casas Bahia Chegou à Recuperação Judicial: O Declínio de um Gigante do Varejo
Leia também: Casas Bahia e a Recuperação Judicial: Entenda os Motivos Por Trás da Crise
Repercussões na Economia do Rio de Janeiro
Roberto Kanter, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), enfatiza que a crise no varejo pode ter impacto expressivo na economia fluminense devido à capilaridade do setor e à geração de empregos. “Quando uma grande loja fecha, há efeitos imediatos na força de trabalho direta, como vendedores e gerentes, mas também em serviços indiretos, como transporte, limpeza e segurança.”
Milene Dellatore, especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, ressalta o efeito territorial do fechamento de grandes lojas, que reduz o fluxo em restaurantes, estacionamentos e pequenos negócios próximos. Ela destaca que as vagas criadas no comércio eletrônico não compensam os empregos perdidos nas lojas físicas, já que são funções distintas, muitas vezes concentradas em centros logísticos fora do município.
Outras Redes Enfrentam Desafios Semelhantes
Além da Casas Bahia, outras grandes redes do varejo também enfrentam dificuldades. Hugo Silveira, fundador e CEO do Grupo HRZ, observa que empresas como Americanas e Grupo Pão de Açúcar apresentam causas diferentes, mas resultados similares. O Grupo Pão de Açúcar entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026, após fechar diversas lojas e encerrar operações de hipermercados. Já a Americanas, com inconsistências contábeis reveladas em 2023, está em recuperação judicial de R$ 43 bilhões.
Silveira destaca que essas redes foram construídas para um modelo em que a loja física era o principal ponto de contato com o cliente, mas hoje o celular e o crédito pulverizado em fintechs e marketplaces mudaram esse cenário. A loja física continua importante, porém não justifica mais sozinha o custo fixo.
A assessoria da Americanas informou que aguarda decisão judicial para o encerramento da recuperação judicial, após cumprir os compromissos do plano aprovado por 91% dos credores. A empresa afirma estar avançando em sua estratégia de crescimento sustentável, com melhora operacional e desempenho positivo.
Leia também: Casas Bahia em Recuperação Judicial: Entenda Seus Direitos e O Que Isso Significa Para Quem Tem Carnê
Leia também: Crise da Casas Bahia Revela Vulnerabilidades do Varejo Baseado em Crédito
Impactos no Mercado Imobiliário e Comércio de Rua
O fechamento de grandes lojas também afeta o mercado imobiliário. Milene Dellatore explica que essas redes ocupam espaços amplos e funcionam como âncoras que atraem fluxo de consumidores. A saída dessas lojas pode levar à redução de aluguéis, concessão de carência ou necessidade de adaptação dos imóveis, impactando também as lojas menores nos shoppings.
Hugo Silveira acrescenta que, embora a vacância comercial não tenha aumentado significativamente, o tipo de imóvel vago, como lojas de eletrodomésticos com layouts específicos, dificulta a substituição direta. A reconversão de uso tem sido uma alternativa, com espaços sendo ocupados por clínicas, academias, centros educacionais e serviços, transformando shoppings em centros multifuncionais.
O comércio de rua sofre ainda mais, pois a falta de gestão centralizada dificulta a reciclagem dos espaços e pressiona preços e segurança local, o que afeta a percepção de moradores e consumidores.
Perspectivas para o Fim do Ano
Roberto Kanter destaca que as datas comemorativas como Dia das Crianças, Black Friday e Natal ainda podem impulsionar o faturamento e melhorar a geração de caixa no varejo, mas alerta que o aumento nas vendas não resolve problemas estruturais em empresas muito endividadas.
Ele ressalta que o comportamento do consumidor mudou, chegando às promoções mais informado e usando o celular para comparar preços, aumentando a transparência do mercado. Assim, apenas as empresas que combinarem preço competitivo, estoque disponível, entrega rápida, experiência digital e atendimento qualificado devem se beneficiar dessas datas.
